A Expiação e a Ressurreição

D. Todd Christofferson

D. Todd Christofferson, “A Expiação e a Ressurreição,” in Richard Neitzel Holzapfel and Paulo Renato Grahl, eds., Buscai Diligentemente: Seleções de “o Educador Religioso,” trans. Roydon Olsen and Vanessa Fitzgibbon (Provo, UT: Religious Studies Center, 2010), 59–70.

Élder D. Todd Christofferson é membro do Quórum dos Doze Apóstolos.

Este artigo foi adaptado de um discurso dado na BYU em 26 de março de 2005.

Sinto-me honrado por poder ter esta oportunidade de compartilhar alguns pensamentos sobre a Expiação e Ressurreição de Jesus Cristo. Tenho lutado, como muitos de vocês, com uma mente limitada a fim de compreender o infinito sacrifício do Salvador. Não pretendo ser capaz de ir às profundezas do assunto, mas espero poder oferecer uma abordagem ou duas que possam nos ser úteis e de encorajamento, conforme refletimos novamente sobre os grandes eventos daqueles poucos dias que fizeram toda a diferença em nossa existência.

Em nossas mentes, tentamos nos colocar de volta no tempo, naquele fim de semana da primeira Páscoa. Hoje é sábado, o Sabbath judeu. Aqui estamos—os eventos de ontem e do dia anterior tiveram um tremendo impacto sobre nós. Era quinta-feira à noite quando a última ceia ocorreu. Depois disso, Jesus passou para além do ribeiro e para o Jardim de Getsêmani e seu sofrimento lá foi tamanho, que nenhum de nós pode totalmente testemunhar ou certamente compreender. Foi talvez nas primeiras horas da manhã de ontem que todo o restante se sucedeu. Ontem, ele foi agredido e abusado por aqueles com autoridade, tanto judeus como romanos. Ele foi finalmente condenado por Pilatos e açoitado. Faz menos de vinte e quatro horas desde que testemunhamos a terrível cena de Sua crucifixação, estando Ele pendurado na cruz e sofrendo intensamente de novo. Foi uma hora muito, muito escura, apesar de não ter se passado muitas horas. Apressadamente colocamos Seu corpo na tumba antes do pôr-do-sol de ontem. Agora, aqui estamos em seu Sabbath. É meio-dia, e estamos divagando, em descrença e confusão. Pensáramos que seria Ele quem salvaria Israel. Pensáramos que Ele era o Messias, mas Ele se foi; Ele está morto.

Ontem, um pouco antes de morrer, Ele disse aquelas palavras: “Está consumado” (João 19:30). O que Ele quis dizer com isso? Quis dizer que Ele falhara? Que Ele nunca retornaria? Que Ele se foi e está tudo terminado? Há algo mais? Sendo incompreensível para vocês e para mim neste cenário, neste Sabbath de dúvidas, Ele, Seu espírito, estava ocupado em outro lugar. Nesta manhã, Ele entrou no mundo dos espíritos. Registros futuros irão confirmar que Ele era esperado lá.

[Estavam ali reunidos uma multidão dos justos], aguardando a chegada do Filho de Deus ao mundo dos espíritos [ainda nesta manhã] para declarar sua redenção das ligaduras da morte.

Seu pó adormecido seria restaurado em sua perfeita forma, cada osso a seu osso, e os tendões e a carne sobre eles, o espírito e o corpo reunidos para nunca mais se separarem, a fim de receberem a plenitude da alegria

Enquanto essa vasta multidão esperava e conversava, regozijando-se pela hora de sua libertação, . . . o Filho de Deus apareceu, anunciando a liberdade aos cativos que tinham sido fiéis;

E ali pregou-lhes o evangelho eterno, a doutrina da ressurreição e a redenção do gênero humano da queda e dos pecados individuais, desde que houvesse arrependimento. (D&C 138:16–19)

Era isso o que Ele estava fazendo nessa manhã. E nas palavras do Presidente Joseph F. Smith, “Organizou suas forças e designou mensageiros, revestidos de poder e autoridade, e comissionou-os para levar a luz do evangelho aos que estavam nas trevas, sim, a todos os espíritos dos homens” (D&C 138:30). E portanto o evangelho será pregado para aqueles que estão mortos. Agora, o que reserva o amanhã, nós não sabemos. Mas no momento certo, uma alegria incompreensível virá sobre nós. Amanhã pela manhã, Maria e as outras mulheres estarão na tumba. Elas a encontrarão vazia. Anjos irão declarar que o Salvador, não estando lá, ressuscitou. Pedro e João entrarão na tumba e a encontrarão vazia. Mais tarde, naquela manhã, com o sol talvez brilhando há pouco, Jesus Mesmo aparecerá a Maria e falará com ela, a primeira mortal a ver o Senhor ressuscitado. Ele mesmo se apresentará a outras mulheres e a Pedro individualmente. Ele estará com dois de vocês no caminho a Emaús e então, perto do anoitecer, mostrará a Si mesmo aos Seus apóstolos e talvez a alguns de nós, reunidos, imaginando e ponderando sobre o maravilhoso testemunho daqueles que O viram antes. Isto é o que nos aguarda amanhã e é glorioso contemplá-lo.

Fico pensando se apreciamos as expectativas que recaem sobre nós pelo que Ele fez e o que Ele agora nos oferece. Naquela que talvez seja a primeira referência a Ele e a Seu papel em nossas vidas, Deus fez o seguinte comentário a Moisés: “Mas eis que meu Filho Amado, que foi meu Amado e meu Escolhido desde o princípio, disse-me: Pai, faça-se a tua vontade e seja tua a glória para sempre” (Moisés 4:2).

Em uma simples sentença, acredito que o Salvador revelou o que era e sempre tem sido Seu principal propósito e Sua motivação. Seu propósito é o de fazer a vontade do Pai e Sua motivação é a de glorificar o Pai. Acredito que isto tenha requerido uma completa devoção, a Sua total devoção para fazer a vontade do Pai, assim como a Sua motivação para glorificar o Pai, para que Ele fosse capaz de suportar o que Ele teve que suportar e levar a Expiação até o fim.

Os relatos de Seu sofrimento encontrados em Mateus, Marcos e Lucas, referindo-se ao Getsêmani, enfatizam o quanto Ele suportou. (Interessou-me o fato de que não há relato do ocorrido no Getsêmani em João, pelo menos daquilo que conhecemos de João. Imagino se isto foi algo que ele sentiu ser muito sagrado para se tratar ou apenas muito sensível para ser recontado.) Pelo menos por três vezes, pelo que nos parece, Ele implorou ao Pai para que Ele não tivesse que beber da taça amarga. Em Mateus, encontramos o seguinte relato:

E indo um pouco mais para diante, prostrou-se com o rosto, orando e dizendo: Meu Pai, se é possível, passe de mim este cálice; todavia, não seja como eu quero, mas como tu queres.

E voltando para os seus discípulos, achou-os adormecidos; e disse a Pedro: Então nem uma hora pudeste velar comigo?

Vigiai e orai, para que não entreis em tentação; na verdade, o espírito, está pronto, mas a carne é fraca.

E, indo segunda vez, orou, dizendo: Pai Meu, se este cálice não pode passar de mim sem eu o beber, faça-se a tua vontade.

E, voltando, achou-os outra vez adormecidos; porque os seus olhos estavam carregados.

E, deixando-os de novo, foi orar pela terceira vez, dizendo as mesmas palavras. (Mateus 26:39–44)

Isto realmente é tudo que temos (repetido de formas variadas em Marcos e Lucas) do que estava na oração. Tenho certeza que havia muito mais. Mas o que foi mais persuasivo, dizendo essencialmente: “Pai, se for possível, passe de mim este cálice. Se há algum modo pelo qual isto possa ser cumprido sem ter que bebê-lo, isto é o que te imploro e que seja feito. Todavia, que não seja feito como eu quero, mas como tu queres.”

Lucas registra que, devido à Sua agonia, “o Seu suor tornou-se em grandes gotas de sangue, que corriam até ao chão” (Lucas 22:44). O próprio Salvador, quando Ele o descreveu para o Profeta Joseph Smith, disse que não era suor mas, de fato, sangue que Ele sangrou por cada poro. Lucas ainda registra que um anjo veio para confortá-lo naquela ordenança (veja Lucas 22:43). E mais tarde, terminando aquele sofrimento na cruz, parecia circunspeto uma vez que o Pai retirou Seu Espírito a fim de que o Filho pudesse pisar o lagar sozinho. “E, à hora nona, Jesus exclamou com grande voz, dizendo: Eloi, Eloi, lama sabactâni? Que, traduzido, é: Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” (Marcos 15:34).

Sempre, entretanto, durante esta agonia e em toda sua súplica por alívio, estava sua submissão à vontade do Pai—“Todavia não seja como eu quero, mas como tu queres” (Mateus 26:39). “Pai Meu, se este cálice não pode passar sem eu o beber, faça-se a tua vontade” (Mateus 16:42). À medida que Ele descreveu a Expiação e a preocupação que Ele tinha em não diminuir ou falhar em beber totalmente daquela taça amarga, Ele expressou uma vez mais a principal motivação que o conduziu durante todo aquele sofrimento incompreensível: “Todavia, glória seja para o Pai; eu bebi e terminei meus preparativos para os filhos dos homens” (D&C 19:19; ênfase acrescentada).

Se Jesus não tivesse se devotado ao Pai e à vontade do Pai durante Sua vida e durante Sua existência antes desta vida, Ele poderia não ter sido capaz de levar a Expiação até seu fim. Como Ele o expressou em João: “Quando levantardes o Filho do homem, então conhecereis quem eu sou, e que nada faço por mim mesmo, mas falo como o Pai me ensinou. E aquele que me enviou está comigo, o Pai não me tem deixado só, porque eu faço sempre o que lhe agrada” (João 8:28-29).

No Livro de Mórmon, Ele declarou: “Eis que eu sou Jesus Cristo, cuja vinda ao mundo foi testificada pelos profetas. E eis que eu sou a luz e a vida do mundo; e bebi da taça amarga que o Pai me deu e glorifiquei o Pai, tomando sobre mim os pecados do mundo, no que me submeti à vontade do Pai em todas as coisas desde o princípio” (3 Néfi 11:10-11).

Mais tarde, ainda no livro de 3 Néfi: “Eis que vos dei o meu evangelho e este é o evangelho que vos dei—que vim ao mundo para fazer a vontade de meu Pai, porque meu Pai me enviou” (3 Néfi 27:13). E as palavras inesquecíveis de Abinádi: “Sim, desse modo será conduzido, crucificado e morto, a carne sujeitando-se à morte, a vontade do Filho sendo absorvida pela vontade do Pai” (Mosias 15:7).

Imagino se nós, a fim de nos mantermos em nossa rota para continuar e perseverar até o fim, para obtermos todos os benefícios de Sua Expiação, não devemos, semelhantemente, nos devotar à vontade e à glória do Pai e do Filho. Não seria lógico que eu e você, a fim de sermos capazes de receber aquilo que Ele nos oferece, tivéssemos que agir como Ele agiu e fazer com que a nossa maior ambição fosse fazer a vontade do Pai e que nosso maior desejo fosse glorificá-Lo?

Li alguns versículos há pouco, provenientes da seção 138 de Doutrina e Convênios, referentes ao advento do Salvador no mundo espiritual antes da Ressurreição. Nesta passagem há uma descrição interessante sobre os justos que aguardavam tal advento. Aqui temos como eles foram descritos: “E achava-se reunido em um só lugar um grupo incontável dos espíritos dos justos, que foram fiéis no testemunho de Jesus enquanto viveram na mortalidade; E que ofereceram sacrifício à semelhança do grande sacrifício do Filho de Deus e sofreram tribulações em nome de seu Redentor. Todos esses haviam partido da vida mortal com a firme esperança de uma gloriosa ressurreição por meio da graça de Deus, o Pai, e seu Filho Unigênito, Jesus Cristo” (D&C 138:12-14).

O que me interessa, particularmente nesta passagem, é a frase “E que ofereceram sacrifício à semelhança do grande sacrifício do Filho de Deus.” Eles não ofereceram um sacrifício equivalente, mas algo semelhante, da mesma natureza. E por este motivo eles ficaram firmes na esperança de uma ressurreição gloriosa ou celestial. O que poderia ser uma oferta à semelhança da grande oferta do Filho de Deus?

Temos a conhecida declaração dada por Adão: “E após muitos dias, um anjo do Senhor apareceu a Adão, dizendo: Por que ofereces sacrifícios ao Senhor? E Adão respondeu-lhe: Eu não sei, exceto que o Senhor me mandou. E então o anjo falou, dizendo: Isso é à semelhança do sacrifício do Unigênito do Pai que é cheio de graça e verdade. Portanto farás tudo o que fizeres em nome do Filho; e arrepender-te-ás e invocarás a Deus em nome do Filho para todo o sempre” (Moisés 5:6–8; ênfase acrescentada).

Sabemos que quando Ele esteve neste hemisfério, após Sua ressurreição e ascensão, Ele pôs fim àquele tipo de sacrifício à semelhança do Unigênito, ou seja, o sacrifício animal. Mas Ele reenfatizou um aspecto do mandamento dado a Adão—“Arrepender-te-ás e invocarás a Deus em nome do Filho para todo o sempre” - quando Ele mais tarde disse: “E oferecer-me-eis como sacrifício um coração quebrantado e um espírito contrito. E todo aquele que a mim vier com um coração quebrantado e um espírito contrito, eu batizarei com fogo e com o Espírito Santo, como os lamanitas que, por causa de sua fé em mim na época de sua conversão, foram batizados com fogo e com o Espírito Santo” (3 Néfi 9:20). Seria então, por meio de um sacrifício semelhante ao Seu, que nós nos submeteríamos inteiramente a Deus.

Na seção 20 de Doutrina e Convênios lemos: “Portanto o Deus Todo-Poderoso deu seu Filho Unigênito, como está escrito nessas escrituras que por ele foram dadas. Sofreu tentações, mas não lhes deu atenção. Foi crucificado, morreu e ressuscitou no terceiro dia; E subiu ao céu, para assentar-se à direita do Pai a fim de reinar em onipotência, de acordo com a vontade do Pai; [Com que propósito?] Para que todos os que cressem e fossem batizados em seu santo nome e perseverassem . . . até o fim, fossem salvos” (D&C 20:21-25).

Este é o nosso sacrifício, em semelhança ao Seu, o de sermos batizados em Seu santo nome e de perseverarmos até o fim. Permitam-me lembrá-los de dois versos bastante conhecidos de um hino sacramental, “Deus tal amor por nós mostrou.”

Deus tal amor por nós mostrou

Que a nós seu Filho Jesus enviou

Para o caminho nos mostrar

Que ao Reino Eterno vai levar.

E então, no quarto verso, que raramente cantamos:

Agora ele quer de mim

Perseverança até o fim

Que seja reto meu viver

Que aprenda a lhe obedecer. [1]

Este ensinamento, de submissão a Ele e à Sua vontade que nos permitiria colher o benefício da Expiação, poderá abranger uma série de coisas. A revelação registrada no cânone de escrituras que foi dado a Brigham Young, inclui o seguinte verso: “Meu povo deve ser provado em todas as coisas a fim de preparar-se para receber a glória que tenho para ele, sim, a glória de Sião; e quem não suporta correção não é digno do meu reino” (D&C 136:31).

Durante meus primeiros anos como Setenta, fui o companheiro de Élder Russell M. Nelson em uma conferência de estaca. Tivemos uma experiência maravilhosa juntos e, quando terminamos e já estávamos dirigindo de volta para casa, eu lhe disse: “Élder Nelson, espero que, se alguma vez o senhor vir um erro em mim ou algum engano ou fraqueza, que possa me dizer.” Ele respondeu: “Eu o farei.” Fiquei um pouco nervoso por sua aparente ansiedade em atender a meu pedido, mas logo em seguida ele comentou : “Esse é o único meio pelo qual nós demonstramos amor uns pelos outros.” E eu creio que este é realmente um princípio verdadeiro.

O Salvador disse: “Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai é o lavrador. Toda a vara em mim, que não dá fruto, a tira; e limpa toda aquela que dá fruto, para que dê mais fruto” (João 15:1-2). Que forma de limpeza será necessária, ou que sacrifícios serão requeridos de qualquer um de nós, isto provavelmente não saberemos de antemão. Mas, se como o rico mancebo, nós perguntássemos: “Que me falta ainda?” (Mateus 19:20), a resposta do Salvador seria possivelmente a mesma: “Segue-me” (Mateus 19:21)—ou, na linguagem do Rei Benjamin, “[Tornar-se] como uma criança, submisso, manso, humilde, paciente, cheio de amor, disposto a submeter-se a tudo quanto o Senhor achar que lhe deva infligir, assim como uma criança se submete a seu pai” (Mosias 3:19). Aqui está uma outra forma de declará-lo: “E então disse Jesus a seus discípulos: Se alguém quiser vir após mim, renuncie-se a si mesmo, tome sobre si a sua cruz, e siga-me [e este acréscimo da Tradução de Joseph Smith]. E eis que um homem tomar sua cruz significa negar-se a toda iniqüidade e a toda concupiscência mundana e guardar meus mandamentos” (Mateus 16:24; Tradução de Joseph Smith, Mateus 16:26).

Devemos ser capazes de dizer, com Jó, que nossa submissão a Ele, à Sua vontade, é tão completa que “Ainda que ele me mate, nele esperarei” (Jó 13:15). Penso que isto é perfeitamente descrito em forma poética no hino de Isaac Watts, “Quando examinei a magnífica cruz”:

Quando examinei a magnífica cruz

Na qual o Príncipe da Glória morreu,

Contei meu maior ganho, mas perdi

E despejei desdém em todo meu orgulho

Não permita, Senhor, que eu me vanglorie

A não ser na morte de Cristo, meu Deus.

Todas as coisas vãs que mais me atraem

Eu as sacrifico a Seu sangue.

Veja, de Sua Cabeça, Suas mãos, Seus pés,

Tristeza e amor fluem misturados;

Nunca tanto amor e tristeza se encontraram,

Ou espinhos compuseram uma coroa tão rica.

Se o mundo todo tivesse uma natureza como a minha,

Que foi uma dávida muito pequena;

Amor tão grande, tão divino,

Ordena minha alma, minha vida, tudo meu. [2]

Realmente, isso merece a nossa total devoção.

Enquanto é possível que nós não atinjamos o exemplo perfeito do Salvador de sempre fazer as coisas de acordo com a vontade do Pai e sempre vivermos nossas vidas de modo a glorificá-lo, podemos progredir como o Salvador mesmo o fez, graça por graça, até obtermos a plenitude. “E eu, João, testifico que contemplei sua glória, como a glória do Unigênito do Pai, cheio de graça e verdade, . . . que veio e habitou na carne e habitou entre nós. E eu, João, vi que no princípio ele não recebeu da plenitude, mas recebeu graça por graça; E a princípio não recebeu da plenitude, mas continuou de graça em graça, até receber a plenitude; E assim foi chamado de Filho de Deus, porque não recebeu da plenitude no princípio” (D&C 93:11-14).

Há alguns anos atrás na Conferência Geral, citei esta confortante declaração do Presidente Brigham Young, o qual parecia entender o desafio que enfrentamos ainda hoje:

Depois de tudo que tem sido dito e feito, depois dele ter guiado seu povo por tanto tempo, vocês não veem que há uma falta de confiança, de nossa parte, em nosso Deus? Vocês podem observar isto em vocês mesmos? Vocês podem perguntar, “[Irmão] Brigham, você vê isto em si mesmo?” Sim, eu posso ver que ainda me falta confiança, até certo ponto, naquele em quem confio.—Por quê? Porque não tenho poder para tal, como consequência daquilo que a queda fez recair sobre mim. . . .

Alguma coisa cresce dentro de mim, algumas vezes [,] que … traça uma linha dividindo o meu interesse e o interesse de meu Pai nos céus; alguma coisa que faz meu interesse e o interesse de meu Pai nos céus não ser necessariamente o mesmo.

Deveríamos sentir e entender, o tanto quanto fosse possível, o tanto quanto a nossa natureza decaída nos permitisse, o tanto quanto pudéssemos obter fé e conhecimento para entendermos a nós mesmos, que o interesse daquele Deus a quem nós servimos é o nosso interesse, e que não possuímos nenhum outro, nem no tempo nem na eternidade.[3]

A vocês, eu presto meu testemunho dos frutos da grande Expiação. Para mim, eles vêm diante de três títulos:

Perdão. O primeiro é o perdão, ou como algumas vezes dizemos, justificação. “E acontecerá que aquele que se arrepender e for batizado em meu nome, será satisfeito; e se perseverar até o fim, eis que eu o terei por inocente perante meu Pai no dia em que eu me levantar para julgar o mundo” (3 Néfi 27:16).

“Eis que vos digo que quem tenha ouvido as palavras dos profetas, sim, de todos os santos profetas que profetizaram sobre a vinda do Senhor, digo-vos que todos aqueles que tenham escutado suas palavras e acreditado que o Senhor redimiria seu povo e hajam esperado ansiosamente pelo dia da remissão de seus pecados, eu vos digo que estes são a sua semente, . . . os herdeiros do reino de Deus” (Mosias 15:11) .

E este testemunho da seção 20: “E sabemos que a justificação pela graça de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo é justa e verdadeira” (D&C 20:30).

Santificação. Um segundo fruto é a limpeza ou, como algumas vezes dizemos, a santificação que provém de Sua graça: “E nada que seja imundo pode entrar em seu reino; portanto nada entra em seu descanso, a não ser aqueles que tenham lavado suas vestes em meu sangue, por causa de sua fé e do arrependimento de todos os seus pecados e de sua fidelidade até o fim. Ora, este é o mandamento: Arrependei-vos todos vós, confins da Terra; vinde a mim e sede batizados em meu nome, a fim de que sejais santificados, recebendo o Espírito Santo, para comparecerdes sem mancha perante mim no último dia” (3 Néfi 27:19-20).

Em Morôni, lemos: “E novamente, se pela graça de Deus fordes perfeitos em Cristo e não negardes o seu poder, então sereis santificados em Cristo pela graça de Deus, por meio do derramamento do sangue de Cristo, que está no convênio do Pai para a remissão de vossos pecados, a fim de que vos torneis santos, sem mácula” (Morôni 10:33).

E novamente, na seção 20, um testemunho: “E sabemos também que a santificação pela graça de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo é justa e verdadeira, para todos os que amam e servem a Deus com todo o seu poder, mente e força” (D&C 20:31).

Ressurreição. O terceiro glorioso fruto da Expiação é a Ressurreição por si mesma, a qual advém por meio daquele que expiou pela transgressão de Adão. “E nosso pai Adão falou ao Senhor e disse: Por que é que os homens devem arrepender-se e ser batizados na água? E o Senhor disse a Adão: Eis que te perdoei tua transgressão no Jardim do Éden. Aí se começou a dizer entre o povo que o Filho de Deus expiara o pecado original, de modo que os pecados dos pais não podem recair sobre a cabeça dos filhos, pois estes são limpos desde a fundação do mundo” (Moisés 6:53).

Na seção 88, aprendemos: “Ora, em verdade vos digo que por meio da redenção que foi feita por vós realiza-se a ressurreição dos mortos. E o espírito e o corpo são a alma do homem. E a ressurreição dos mortos é a redenção da alma” (D&C 88:14-16).

Com relação à Ressurreição, lemos: “Aqueles que forem de um espírito celestial receberão o mesmo corpo que era um corpo natural; sim, recebereis vosso corpo e vossa glória será a glória pela qual vosso corpo é vivificado. Vós, que fordes vivificados por uma porção da glória celestial, recebereis sua plenitude” (D&C 88:28–29).

Poder para mudar. O poder da Expiação para perdoar, para santificar, para dar nova vida, mesmo a vida eterna e imortal, sobreveio a mim, alguns anos atrás, por meio de uma experiência simples, mas poderososa. Novamente, é um de muitos testemunhos. Nesta ocasião eu havido sido designado pela Primeira Presidência para entrevistar uma mulher para a possível restauração de suas bênçãos do templo. Ela havia cometido algumas transgressões bastante sérias, tinha sido excomungada, depois disso batizada novamente e agora havia solicitado o privilégio de retornar ao templo. Isso requeria essa entrevista e a ordenança de imposição de mãos para restaurar-lhe aquelas bênçãos e direitos. À medida que eu me preparava para aquela entrevista e lia o resumo do que havia acontecido em sua vida, estava atônito. Não podia acreditar que houvesse tanta sordidez e maldade em uma vida. Conforme lia, perguntava a mim mesmo, Como a Primeira Presidência poderia supor que esta pessoa se qualificaria novamente para entrar na casa do Senhor? Quando ela veio até a sala para ser entrevistada, parecia ter um brilho sobre si, uma luz vindo de dentro. À medida que conversávamos, me veio um sentimento de que ela era pura—talvez uma das almas mais puras que eu jamais havia conhecido. Olhei para ela e olhei para o papel descrevendo seu passado, e não pude acreditar que era a mesma mulher. E, num sentido real, ela era uma pessoa diferente. A Expiação a tinha transformado. Pude compreender, poderosamente, a profundidade, a extensão e a capacidade da graça da expiação de Jesus Cristo. Ele é real e Sua graça é muito real.

Conclusão

À medida que concluímos esta reflexão sobre a Expiação e a Ressurreição, é apropriado considerarmos então o testemunho do Profeta Joseph Smith. O martírio reveste o testemunho de um profeta com uma validade especial. A raiz grega da palavra, martireo, da qual a palavra mártir é derivada, significa “testemunha,” ou “prestar testemunho.” O profeta Abinádi é descrito como tendo selado as palavras, ou a verdade de suas palavras, com sua morte (veja Mosias 17:20). A própria morte de Jesus foi um testamento de Sua divindade e de Sua missão. Ele é declarado em Hebreus o “Mediador dum novo Testamento” (Hebreus 9:15), validado por Sua morte, “Porque onde há testamento necessário é que intervenha a morte do testador. Porque um testamento tem força onde houve morte” (Hebreus 9:16–17).

Como a maioria dos ungidos do Senhor nos tempos antigos, Joseph Smith selou sua missão e seus trabalhos com seu próprio sangue. Sob uma chuva de balas na tarde de 27 de junho de 1844 em Carthage, Joseph e seu irmão, Hyrum, foram mortos pela religião e testemunho que professavam. E como os Apóstolos dos últimos dias então anunciaram: “Os testadores agora estão mortos e seu testamento está em vigor. . . . e seu sangue inocente sobre o estandarte da liberdade e sobre a carta magna dos Estados Unidos é um embaixador da religião de Jesus Cristo, que tocará o coração dos homens honestos de todas as nações” (D&C 135:5, 7; ênfase no original).

O Salvador não teve entre os mortais uma testemunha mais fiel, um discípulo mais obediente, um defensor mais leal do que Joseph Smith.

Termino com seu grande testemunho do Salvador, fazendo-o meu próprio, e unindo-o aos seus:

E contemplamos a glória do Filho, à direita do Pai, e recebemos de sua plenitude;

E [nós] vimos os santos anjos e os que são santificados diante de seu trono, adorando a Deus e ao Cordeiro, a quem adoram para todo o sempre.

E agora, depois dos muitos testemunhos que se prestaram dele, este é o testemunho, último de todos, que nós damos dele: Que ele vive!

Porque o vimos, sim, à direita de Deus; e ouvimos a voz testificando que ele é o Unigênito do Pai—

Que por ele e por meio dele e dele os mundos são e foram criados; e seus habitantes são filhos e filhas gerados para Deus. (D&C 76:20–24)

Este é o aspecto mais significativo de toda a nossa existência. É real. Ele é real. “Não está aqui, mas ressuscitou” (Lucas 24:6). Em nome de Jesus Cristo, amém.

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Notas
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[1] “God Loved Us, So He Sent His Son” [“Deus tal amor por nós mostrou”], Hymns [Hinos] (Salt Lake City: A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, 1985) no. 187 [em português no. 107].

[2] “When I Survey the Wondrous Cross” [“Quando examinei a magnífica cruz”—tradução livre], Westminster Choir College Library (Bryn Mawr, PA: Theodore Presser, 1970).

[3] Brigham Young, Deseret News, 10 de setembro de 1856, 212.