Paz e Sossego

POSTED BY: holzapfel

05/28/09


Recém visitei Powell’s City of Books [livraria] no centro de Portland, Estado de Oregon. Powell’s é uma das livrarias independentes [que não faça parte de uma cadeia nacional] notáveis dos Estados Unidosis e pelo que saibamos é a que mais vende livros usados em todo o mundo. A loja ocupa um quarteirão inteiro e mantém em destaque mais de um milhão de títulos.

Ao vagar por este local famoso, observei, na seção de autores e autógrafos, o livro de Gordon Hempton One Square Inch of Silence: One Man’s Search for Natural Silence in a Noisy World [Uma polegada quadrada de silêncio: Um homem à busca de silêncio natural num mundo barulhento] (New York: Free Press, 2009). O título me captou por causa de meu interesse no assunto (vide meu blog de 3 de novembro de 2008, “Solidão, Silêncio e Escuridão”) e logo coloquei-o na braçada de livros que eu já levava. Hempton é um técnico premiado de gravação de som que mora em Port Angeles, Estado de Washington, próximo ao Parque Olímpico Nacional—o local de “uma polegada quadrada” cujos ruídos e silêncio ele gravou.

Este livro conta a história de uma viagem épica de carro atravessando os Estados Unidos a fim de gravar os ruídos da paisagem natural da América. Ele encheu sua Kombi Volkswagen ‘64 de equipamentos de gravação e de medição de decibel antes de partir da costa oeste rumo à costa leste do país. É difícil escapar do barulho do mundo moderno, como Hempton mostra. Até em alguns dos lugares mais silenciosos da América do Norte—nossos parques nacionais—aviões quebram o silêncio e maquinaria moderna usada pelos próprios funcionários do parque às vezes molesta tanto os humanso como os animais presentes.

Por final, ao chegar a Washington DC, onde ele se reuniu com oficiais do governo federal para dar apoio à legislação que conservaria o silêncio natural nos parques nacionais, ele havia gravado os sons, imagens e retratos de uns lugares maravilhosos, inclusive parte do interior do Estado de Utah (121–56). O livro é acompanhado de um CD que preserva os sons gravados.

Nós, com certeza, enfrentamos hoje a poluição sonora. Para ter uns momentos de paz e sossego temos que desligar a televisão, rádio ou iPod. Como observa Hempton: “As palavras paz e sossego são quase sinônimas e muitas vezes se pronunciam na mesma frase” (12).

Hempton relata os benefícios de estar num lugar natural e de sossego. Ele nota que “coisas boas vêm de lugar sossegado: estudo, oração, música, transformação, adoração e comunhão” (12). Ele argumenta que “se não dermos ouvidos ao problema do sumiço do sossego natural, perderemos algo precioso, algo insubstiuível (3). Ele observa: “É nosso direito de herança poder escutar, calmos e sem inquietação, o som do ambiente natural” (2).

É interessante notar, como observa Hempton, que “a fauna depende do senso de audição para detectar os predadores que se aproximam e certamente os animais não ficarão por muito tempo em lugares onde é difícil ouvir” (20). Ele também opina: “Só a audição pode monitorar em todas as direções ao mesmo tempo e até predizer o que se poderá encontrar ao dobrar a esquina” (56).

Eu, às vezes, fico pensando se os humanos também lutam para ouvir, ouvir a voz do Espírito, que pode preveni-los de perigos que não se enxergam, ou daquilo que se dará conosco ao dobrar a esquina. Os ruídos, em nível cada mais crescente, podem nos distrair e desviar-nos de pensamentos e ações mais elevados e nobres. Talvez não nos desfrutemos de tais experiências espirituais o quanto que devíamos por falta de silêncio natural que pode permitir-nos sintonizar nossos ouvidos à voz celestial. Cada vez mais, as vozes e ruídos conflitantes nos enchem os ouvidos de conselhos contraditórios e barulhos que nos afastam das coisas do Espírito. Tais vozes e sons não só procuram captar nossa atenção como também querem cativar nosso coração.

O salmista disse: “Aquietai-vos, e sabei que eu sou Deus” (Salmos 46:10). Eis uma verdade eterna do passado—verdade esta que se tratava de um bom conselho naquela época bem como na atual.