Qual é a Probabilidade?

POSTED BY: holzapfel

04/16/09


Alguns anos atrás, um exaluno me escreveu uma carta para exprimir sua inquietação quanto ao ensinamento de que A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Úlitmos Dias é a “única igreja verdadeira e viva” (vide Doutrina e Convênios 1:30). Ele se convenceu que tal crença era arrogante e orgulhosa. Além disso, ele duvidava que tivesse sido abençoado por estar na igreja certa pois tantos outros não pertenciam a ela. Ele pensava que este fato era tão improvável que não era lógico crer naquilo.

Com certeza eu reconheço que, como em todas as nacionalidades, classes e grupos, sejam formais ou informais, há na Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias membros bons bem como membros ruins, ou seja, uns que procuram viver os ideais do evangelho e outros que não. Porém, eu cheguei a categoricamente rejeitar as generalizações sobre qualquer grupo de seres humanos, quer sejam muçulmanos, budistas, agnósticos, liberais, quer sejam conservadores. Nas minhas pesquisas e experiências tenho descoberto que nenhuma seita, grupo, família, ou nação pode ser tão facilmente definida por tais estereótipos.

Ao longo dos anos, depois daquela conversa, tenho pensando na nocão do meu exaluno de que não é lógico uma pessoa crer que nasceu na única Igreja verdadeira, racionalizando que pela análise estatística não é provável que ele tenha sido um dos poucos sortudos entre os bilhões de habitantes que já viveram e ainda viverão aqui na terra.

Tenho pensado muito na ideia dele de que crer que pertencemos à única igreja verdadeira tornaria, necessariamente, o membro arrogante e orgulhoso. Certamente há muitas pessoas privilegiadas que são arrogantes e orgulhosas por causa de suas boas condições. Mas há muitos e muitos que vivem em sociedades prósperas, democráticas e modernas que ao invés de se orgulhar sentem uma grande responsabilidade social devido a suas muitas bênçãos. Sentem-se obrigados a dedicar seu tempo, recursos e energia em ajudar aqueles que são meno favorecidos. E esta é, justamente, a reposta para meu exaluno. Há alguns, talvez muitos, na Igreja que na verdade são arrogantes e oruglhosos, porém há muitos outros que compreendem que o privilégio de ser membro também nos requer a consagração de tudo que temos para ajudar os outros a obterem as mesmas vantagens que desfrutamos.

Não sei por que nasci no Oeste numa era de oportundidades sem precedentes, com invenções milagorasa, novas técnicas médicas que salvam vidas e mais liberdade política. Mas sei que levamos um estilo de vida que a maioria das pessoas que viveram na terra não poderiam imaginar. Tal conhecimento me humilhou e me compeliu a ser mais sensível ao mundo afora e aprender mais sobre os desafios que as pessoas enfrentarm e achar meios de ajudá-las por meio de apoiar e doar a organizações caridosas que proporcionem alimento, abrigo, roupa, assistência médica e educação, bem como contribuir ao fundo humanitário da Igreja.

Qual é a probabilidade de sermos tão abençoados? Eu não sei, mas reconheço que tenho a possibilidade de fazer algo de útil com aquilo que foi me dado.

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Sexta-feira Santa

POSTED BY: holzapfel

04/10/09


O blog desta semana foi escrito pelo convidado especial Eric D. Huntsman, professor adjunto de escrituras antigas.

No seu discurso de manhã na conferência geral de 5 de abril de 2009, o Presidente Uchtdorf se referiu ao nome tradicional daquele domingo, o de Domingo de Ramos. Antecipando a Páscoa, ele incentivou os membros da Igreja a focalizar a mente de forma mais completa no grande sacrifício expiatório do Senhor Jesus Cristo. O Presidente Uchtdorf disse: “Convém que durante a semana entre o Domingo de Ramos e a manhã da Páscoa pensemos em Jesus Cristo, a fonte de luz, vida e amor. As multidões de Jerusalém podem tê-lo encarado como um grande rei que lhes libertaria da opressão política. Mas na realidade Ele nos deu muito mais do que isto. Ele nos deu seu evangelho, “uma pérola sem preço, a grande chave de conhecimento que, uma vez compreendida e aplicada, abre-nos uma vida de felicidade, paz e autorrealização.” No seu discurso o Élder Holland também se referiu aos eventos da última semana de vida mortal do Salvador. “Ao entrarmos nesta semana santa (quinta-feira da Páscoa que representa o sacrifício do cordeirinho pascal, sexta-feira santa [da paixão] cujo símbolo é a cruz, o Domingo de Ressurreição em que se encontrou o sepulcro desocupado) comprometamo-nos a ser discípulos mais íntegros do Senhor Jesus Cristo.”

Hoje é sexta-feira santa, dia que se comemora na maioria do mundo cristão como um dia de grande solenidade e santidade. Quando eu era rapazinho, eu conhecia este dia por meio dos meus amigos e vizinhos católicos e protestantes. Eu pensava que o nome inglês “Good Friday [sexta-feira boa]” se tratava de paradoxo. O que havia de bom no dia em que Jesus morreu? Só quando amadureci no evangelho é que cheguei a entender que a morte de Jesus era algo santo, um ato sagrado que selou sua jornada expiatória que se iniciara na noite anterior quando ele tomou sobre si nossos pecados e mágoas e então, como vítima sacrificial, levou a carga pesada ao altar—neste caso, à cruz—onde ele pagou o preço extremo. Mais tarde aprendi uma nuança linguística. A própria palavra “good” de “Good Friday” deriva-se da palavra “God [Deus].” Por exemplo o “good” de “good-bye [adeus]” vem da expressaõ antiga “God be with you [Deus esteja convosco].” Neste caso “Good Friday” é “God’s Friday [sexta-feira de Deus = sexta-feira santa],” um dia de significado cósmico quando o Pai reconciliou o mundo a si: “Mas Deus prova o seu amor para conosco, em que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores. Logo muito mais agora, tendo sido justificados pelo seu sangue, seremos por ele salvos da ira. Porque se nós, sendo inimigos, fomos reconciliados com Deus pela morte de seu Filho, muito mais, tendo sido já reconciliados, seremos salvos pela sua vida. E não somente isto, também nos gloriamos em Deus por nosso Senhor Jesus Cristo, pelo qual agora alcançamos a reconciliação [expiação]” (Romanos 5:8–12).

Grande parte do que se comemora na sexta-feira santa não me parecia confortável como Santo dos Últimos Dias. “Nós adoramos o Cristo vivente e não um Cristo morto,” era uma frase comum que ouvia quando jovem. Talvez fosse mais fácil para mim naquela época reconhecer de forma superficial que de alguma forma Jesus tomou sobre si o peso dos nossos pecados e mágoas em Getsêmani e logo passou por um tribunal injusto, por abusos e pela crucificação. Daí, focalizava-me na alegria da manhã da Páscoa. A cruz era quase desconhecida, senão incômoda, para mim. A Igreja não depende muito de imagens nas capelas e templos, apesar de haver abundância de outros tipos de simbolismo. Eu não entendia por que o crucifixo tinha tanta importância para meus amigos, pois eu não compreendia os detalhes teológicos da missa como ‘verdadeiro sacríficio,’ conforme a tradição católica. Por não ter perguntado a meus amigos protestantes qual era o significado da cruz para eles, eu desconhecia até me tornar adulto o fato de que para eles a cruz não representava somente sua morte por nós e sim a ressurreição, porque a cruz, afinal, ficou desocupada!

Uma pesquisa mais apurada, porém, nos dá novo ententimento da riqueza simbólica das imagens da morte de Jesus na cruz. Não se trata da cruz só, não importando se era um poste vertical ou uma espécie de andaime sobre o qual a viga da vítima era pregada. Tampouco se trata da iconografia religiosa nem da cruz latina nem da grega. Em vez disso, para mim o significado da cruz resta na imagem de Cristo “ser levantado” e nas marcas e símbolos de seu sacrifício que a crucificação deixou.

Três vezes no Evangelho segundo São João, Jesus disse que antes de voltar a seus Pai, deveria ser levantado e atrair a si todos os homens (vide João 3:14, 8:28, 12:32–33), e ao fazer a última declaração, ele deixou claro que ser levantado se referia à maneira pela qual iria morrer. A crucificação era uma forma humilhante e, sobretudo, uma forma muito pública de execução. O que é de significante é que o sacrifício de Jesus foi feito para todos, em todos os tempos e lugares. João 3:14 faz uma ligação direta ao levantar da serpente de bronze numa vara no deserto (vide Números 21:9), imagem esta que os autores do Livro de Mómonan reconheciam e sobre a qual discursavam (vide 2 Néfi 25:20; Alma 33:19; Helamã 8:14–16). Portanto a crucificação mostra que a morte salvífica de Jesus proporcionará vida e restauração a todos aqueles que simplesmente o olharem.

Talvez a maior confirmação da ideia de “levantar-se” tenha vindo de Jesus mesmo quando disse aos nefitas: “E meu Pai enviou-me para que eu fosse levantado na cruz, pudesse atrair a mim todos os homens, a fim de que, assim como fui levantado pelos homens, assim sejam os homens levantados pelo Pai, para comparecerem perante mim a fim de serem julgados por suas obras, sejam elas boas ou más—E por esta razão fui levantado; portanto, de acordo com o poder do Pai, atrairei todos os homens a mim para que sejam julgados segundo suas obras” (3 Néfi 27:14–15).

Reconhecer que a crucificação era equivalente a “ser levantado [enforcado] numa árovore” acrescenta outro aspecto de simbolismo. Sob a lei de Moisés, maldito era aquele que era pendurado em madeiro (vide Deuteronômio 21:22–23), explicando, talvez, um dos motivos de os inimigos de Jesus estarem tão desejosos que os romanos o crucificassem. Não é bem claro se as autoridades judaicas tinham direito de pronunciar a pena de morte (a proibição contrar executar um homem a que se refere em João 18:31 pode se referir ao fato da lei judaica não permitir execuçaõ durante a época da Páscoa), mas pedir que os romanos matassem Jesus representa mais do que só transferir a culpas para eles. A execução judaica por blasfêmia consistia em apedrejamento, ao passo que a execução romana por traição ou rebelião era a crucificação. O sumo sacerdote perguntara a Jesus na noite anterior: “És tu o Cristo, o Filho do Deus Bendito?” (Marcos 14:61), e não havia nada (para os líderes do judeus) que pudesse melhor provar ao contrário do que pendurá-lo numa árvore. Não obstante, esta “maldição” fazia parte da missão do Salvador—a de descer abaixo de todas as coisas. Em verdade, Paulo escreveu: “Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se maldição por nós; porque está escrito: Maldito todo aquele que for pendurado no madeiro” (Gálatas 3:13).

O que é de surpreendente, porém, é que a cruz, a árvore de maldição, se tornou, para todos os efeitos, a Árvore de Vida para nós. Depois que Jesus morreu, um soldado romano lhe furou o lado com uma lança, “e logo saiu sangue e água” (João 19:34). Se voltarmos o pensamento ao discurso de Jesus com a mulher samaritana sobre a água vivente (João 4) ou a seu discurso sobre o Espírito que dá vida em João 7, em que as fontes de água vivificadora saiem dele, este sinal reforça a ideia de que a morte de Jesus nos trouxe vida. De fato, na iconografia da idade média se desenvolveu a imagem da “cruz verdejante,” ou cruz verde, que muitas vezes era representada brotando folhas e frutas.

Por fim, a crucificação deixou símbolos duradouros do ato de salvação, ou seja, as marcas que davam testemunho mais seguro de que ele é o Senhor e Deus daqueles a quem salvou. Embora a experiência de Tomás logo depois da Ressurreição sugira que devemos crer antes de receber tal certeza (vide João 19:24–29), o ato de Jesus mostrar aos discípulos as marcas nas mãos, nos pés e no lado adquiriu um significado ritual quando ele apareceu aos nefitas no templo de Abundância: “Levantai-vos e aproximai-vos de mim, para que possais meter as mãos no meu lado e também apalpar as marcas dos cravos em minhas mãos e em meus pés, a fim de que saibais que eu sou o Deus de Israel e o Deus de toda a Terra e fui morto pelos pecados do mundo” (3 Néfi 11:14).

Por este motivos, ao ler, revisar e poderar os atos finais de Salvador neste dia, não tenho mais receio quanto às imagens que antes eram estranhas para mim. Em vez disso, sou feliz no que Jesus fez por mim e encaro-o como precursor necessário tanto do o dia da Páscoa como da dádiva de vida eterna, o fruto precioso da árvore, o qual “é a maior de todas as dádivas de Deus” (1 Néfi 15:26; vide também D&C 14:7).

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