Millet, Robert L., "Prophets and Priesthood in the Old Testament (Os Profetas e o SacerdÕcio no Velho Testamento)" em Sperry Symposium Classics: The Old Testament, redação de Paul Y. Hoskisson (Provo e Salt Lake City: Religious Studies Center, Brigham Young University, e Deseret Book 2005), 48-68.
Robert L. Millet é professor de escrituras antigas e outrora director de Educação Religiosa da Universidade
Brigham Young.
A voz da profecia é uma voz de autoridade, autoridade divina. Aqueles que são chamados para falar pelo Senhor Jeov´ recebem poderes de Jeov´ e são ordenados a sua santa ordem. Por isso convém dedicar nossa atenção e estudo à natureza da autoridade profética, ou seja o poder do santo sacerdÕcio entre os profetas de antigo Israel.
O Profeta Joseph Smith escreveu o seguinte em 1842: “Cremos na mesma organização que existia na Igreja Primitiva, isto é, apÕstolos, profetas, pastores, mestres, evangelistas, etc. ” (Regras de Fé 1:6). Na época certa, quando Deus o Pai Eterno na sua sabedoria infinita decidiu re-estabelecer seu reino aqui na terra, Ele começou a restaurar os sacerdÕcios, ofícios, quÕruns e conselhos fundamentais que haviam sido organizados por Jesus Cristo no meridiano dos tempos. A “obra maravilhosa e um assombro” previstos por Isaías (Isaías 29:14) se trata da restauração d’A Igreja de Jesus Cristo que existira desde muitos séculos antes do ministério mortal de Jesus (vide D&C 107:4). Aquela restauração consistiria nas verdades, nos poderes, nos sacerdÕcios, nos convênios e nas ordenaças do Velho Testamento, de tal forma que “uma total, completa e perfeita união e fusão de dispensações e chaves e poderes e glÕrias ocorressem e fossem reveladas desde os dias de Adão até o tempo atual. E não era somente isso, mas também as coisas que nunca se revelaram desde a fundação do mundo, mas que se conservavam ocultas aos s´bios e prudentes, serão reveladas a crianças e recém nascidos nesta dispensação, que é a da plenitude dos tempos” (D&C 128:18).
O SacerdÕcio de Melquizedeque, o “Santo SacerdÕcio segundo a ordem do Filho de Deus” (D&C 107:3), é, como seu Autor, ou seja, infinito e eterno (vide Alma 13:7–9). “O SacerdÕcio é um princípio sempiterno,” explicou Joseph Smith, “e existia com Deu de eternidade em eternidade e sem início de dias nem fim de anos.”1é sobre este santo sacerdÕcio que falaremos—mais especificamente, o SacerdÕcio de Melquizedeque, através do qual esta autoridade divina tinha operado desde Adão até Malaquias. Infelizmente o Velho Testamento é quase mudo no que se refere ao sacerdÕcio maior. Assim, precisamos depender maciçamente dos ensinamentos doutrin´rios de Joseph Smith, conforme expostso em seus sermões, revelações e traduções. Ademais, recorreremos às ilucidações e exposições dadas por aqueles que conheciam de primeira mão o Irmão Joseph, bem como seus sucessores apostÕlicos e proféticos a quem se deu o mandado divino de edificar sobre o fundamento doutrin´rio que ele lançara.
ADãO E O SACERDÕCIO
No momento que a igreja de Deus se organiza na terra com oficiais legais, o reino de Deus est´ aqui. O Profeta Joseph Smith explicou: “O reino de Deus foi estabelecida na terra desde os dias de Adão até o presente tempo e estava aqui sempre que havia um homem justo na terra a quem Deus revelava sua palavra e a autoridade de agir em seu nome. E quando h´ um sacerdote de Deus—um ministro que possui o poder e autoridade de Deus para administrar as ordenanças do evangelho e oficiar no sacerdÕcio de Deus—ali est´ o reino de Deus.”2
Desde os dias de Adão até a época de Moisés, os homens e mulheres viveram sob a ordem patriarcal do SacerdÕcio de Melquizedeque. Isto é, viviam em famílias presididas por um patriarca. Este regime incluia o novo e sempiterno convênio de casamento.3 “Adão possuía o sacerdÕcio,” observou o élder Russell M. Nelson, “e Eva atuava numa parceria matriarcal com o sacerdÕcio patriarcal.”4 O Presidente Ezra Taft Benson explicou que “Adão e seus descendentes entraram para a ordem sacerdotal de Deus. Hoje em dia, diríamos que foram à Casa do Senhor e receberam suas bênçãos. Refere-se às vezes a esta ordem do sacerdÕcio mencionada nas antigas escrituras como a ordem patriarcal, porque passava de pai para filho. Mas também se descreve esta ordem na revelação moderna como sendo um sistema de governo familiar em que o homem e a mulher fazem convênio com Deus—justamente como o fizeram Adão e Eva—para serem selados por toda a eternidade, terem uma posteridade e fazerem a vontade e obra de Deus por toda a vida mortal.”5
Embora não tenhamos certeza quanto à organização exata da Igreja durante a chamada era pre-cristã, os líderes sacerdotais entre os antigos procuravam sempre fazer a vontade de Deus em todos os assuntos. Tais vultos como Adão, Sete, Enos, Cainã, Maalalel, Jarede, Enoque, Matusalém, Lameque e Noé eram todos sumo sacerdotes; eles governavam a Igreja e reino em retidão por meio de seus cargos civis (reais) e eclesi´sticos (sacerdotais). Outros homens dignos possuíam o sacerdÕcio maior, mas os patriarcas eram os oficiais presidentes e tinham as chaves e o direito de presidir.6 “Adão, nosso pai, o primeiro homem, é o sumo sacerdote presidente sobre a Terra por todas as eras,” O élder McConkie observou:
A governança que o Senhor lhe deu era patriarcal, e . . . a parte reta da humanidade era abençoada e governada por uma teocracia patriarcal. Tal sistema teocr´tico, baseado na ordem e sistema que prevalecia no céu, era o governo de Deus. O prÕprio Deus, embora habitasse no céu, era o Legislador, Juiz e Rei. Ele lhes dava instruções em todas as coisas, tanto civis como eclesi´sticas; não havia separação de igreja e estado como no mundo de hoje. Todos os assuntos do governo eram dirigidos e regulamentados de l´ das alturas. Os administradores legais do Senhor aqui na terra serviam em virtude de seu chamado e ordenação no Santo SacerdÕcio e eram guiados pelo poder do Espírito Santo.7
Adão foi o primeiro cristão na terra. Ele foi batizado, confirmado, nascido do Espírito, vivificado no ânimo, ordenado e recebido na santa ordem de Deus (vide Moisés 6:64–68). “O sacerdÕcio foi dado primeiramente a Adão; ele obteve a Primeira Presidência e possuía suas chaves de geração em geração.”8 No livro de Moisés, na tradução inspirada de Joseph Smith dos capítulos iniciais de Gênesis, o Profeta registrou a revelação do evangelho a Adão. Nele lemos a respeito do batismo e re-nascimento espiritual de Adão. “E ele ouviu uma voz do céu, dizendo: Foste batizado com fogo e com o Espírito Santo. Este é o testemunho do Pai e do Filho, de agora em diante e para sempre.” Agora prestem atenção à linguagem da escritura: “E tu és segundo a ordem daquele que é sem princípio de dias ou fim de anos de toda a eternidade para toda a eternidade. Eis que tu és um em mim, um filho de Deus; e assim possam todos tornar-se meus filhos. Amém” (Moisés 6:66–68).
Adão nasceu de novo e se tornou, através da adoção, um filho de Cristo. O Presidente Joseph Fielding Smith escreveu: “O plano de salvação foi revelado a Adão depois de expulso do Jardim do Edem e a ele foi conferida a plenitude do sacerdÕcio.”9 Em verdade, como comentou o élder John Taylor, “Adão foi o pai natural de sua posteridade, ou seja a sua família, a qual ele presidia como patriarca, profeta, sacerdote e rei.”10
O relato dos ofertas de Caim e Abel, como consta no capítulo 4 de Gênesis, se vivifica e recebe um contexto doutrin´rio mais âmplo através da tradução inspirada do Profeta. Aprendemos que Deus ordenara a Adão Eva e sua posteridade que “oferecessem as primícias de seus rebanhos como oferta ao Senhor. . . à semelhança do sacrifício do Unigênito do Pai” (Moisés 5:5–7). Caim, um que “amava Satan´s mais que Deus” (Moisés 5:18), rejeitou os ensinamentos de seus pais e fez um convênio com o pai das mentiras. Motivado por Satan´s e em rebeldia ao mandamento de oferecer um sacrifício de sangue,11 Caim “levou do fruto da terra, uma oferta ao Senhor.” Por outro lado, Abel “obedeceu à voz do Senhor” e “levou das primícias de seu rebanho.” O Senhor “atentou para Abel, e para sua oferta; mas para Caim e para sua oferta ele não atentou.” Caim então entrou numa aliança imunda com Satan´s, tramou e executou o assassinato de seu irmão, Abel, e deu início às combinações secretas na terra (vide Moisés 5:18–51).
O Profeta Joseph explicou que pela fé na expiação de Cristo e o plano de redenção:
Abel ofereceu a Deus um sacrifício que foi aceito, que consistia nas primícias do seu rebanho. Caim ofereceu dos frutos da terra, o que não foi aceito porque ele não pôde fazê-lo com fé; ele não podia ter fé, ou seja, ao contr´rio do plano do céu, não pôde exercer fé. SÕ pelo derramamento do sangue do Unigênito se pode expiar os pecados do homem, pois este é o plano de redenção; e sem o derramamento de sangue, não havia remissão [vide Hebreus 9:22] e posto que o sacrifício foi instituído como protÕtipo pelo qual o homem aprenderia sobre o grande sacrifício que Deua havia preparado, oferecer um sacrifício em oposição a isto manifestaria uma falta de fé, porque a redenção não foi comprada desta maneira, tampouco a expiação foi estabelecida segundo a ordem que Caim seguia. Em consequência disso, Caim não pôde ter fé. E o que não se baseia em fé é pecado.
O Profeta também disse que independente das v´rias opiniões dos eruditos “no que diz respeito à conduta de Abel e o conhecimento que ele tinha acerca do assunto da expiação, é evidente a nÕs que ele foi instruído muito mais a respeito do plano de Deus do que a Bíblia fala. . . . Como é que Abel pôde oferecer um sacrifício e, com fé no Filho de Deus, esperar a remissão de seus pecados e não entender o evangelho?” Agora, notem o que o Profeta pergunta: “E se Abel foi instruído sobre a vinda do Filho de Deus, não teria ele também aprendido as ordenanças? Todos nÕs concordamos em que o evangelho tem ordenanças, e se este fosse o caso, não teria tido sempre o evangelho suas oredenanças, e não teriam sido estas ordenanças sempre as mesmas?”12
Quase sete anos mais tarde, o Irmão Joseph declarou que Deus havia “estabelecido as ordenanças para serem as mesmas para sempre e colocou Adão para zelar por elas, revelando-as ou diretamente do céu ao homem ou por meio de mensageiros angélicos.” Não h´ dŨvida que Adão “recebeu revelações, mandamentos e ordenanças desde o início, senão como é que poderiam oferecer sacrifícios a Deus de forma aceti´vel? E se é que ofereciam sacrifícios, deviam ter possuído autorização para fazê-lo por meio de ordenação.”
Então o Profeta cita o ApÕstolo Paulo: “Pela fé Abel ofereceu a Deus maior sacrifício do que Caim, pelo qual alcançou testemunho de que era justo, dando Deus testemunho de seus dons, e por ela, depois de morto, ainda fala” (Hebreus 11:4). “Como ele ainda fala?” perguntou Joseph. “Porque ele magnificou o sacerdÕcio que foi lhe conferido e faleceu, sendo um homem justo, e portanto se tornou um anjo de Deus e, tendo recebido seu corpo dentre os mortos, ainda possui as chaves de sua dispensação. Assim ele foi mandado do céu a Paulo para ministrar palavras de consolo e para conceder-lhe conhecimento dos mistérios da divindade.”
E logo o Profeta falou sobre Caim e Abel numa espécie de resumo a respeito deste assunto: “O poder, a glÕria e as bênçãos do SacerdÕcio permanecem com aqueles que permanecem na retidão, pois Caim também havia sido autorizado (ordenado) a fazer sacrifício, mas sua oferta não se fez em retidão, portanto ele foi amaldiçoado. Significa, então, que as ordenanças devem ser efetuadas da exatíssima forma que Deus ordenou, de outro modo seu sacerdÕcio se tornar´ maldição em vez de bênção.”13
Não sabemos muito das chaves da dispensação de Abel, mencionada acima, a não ser o fato de uma revelação moderna indicar que uma linha do sacerdÕcio descendeu “de Noé até Enoque, através da linhagem dos pais deles; e de Enoque até Abel, que foi assassinado pela conspiração de seu irmão e que recebeu o sacerdÕcio pelos mandamentos de Deus, pelas mãos de seu pai Adão, que foi o primeiro homem” (D&C 84:15–16; letra it´lica acrescida pelo autor). Com o homicídio de Abel e a defecção de Caim para a perdição, Deus proveu outro filho para Adão e Eva, por meio do qual as bênçãos do sacercÕcio evangélico, ou ordem patriarcal, perdurariam. Sete foi “ordenado por Adão aos sessenta e nove anos e foi abençoado por ele antes de sua morte (a morte de Adão), e Sete recebeu a promessa de Deus através de seu pai que sua descendência seria a escolhida do Senhor e se preservaria até o fim da Terra; porque ele (Sete) foi um homem perfeito e sua semelhança era a semelhança expressa de seu pai, tanto que parecia ser como o pai em todas as coisas, dele podendo distinguir-se apenas pela idade” (D&C 107:42–43; compare Moisés 6:10–11).
ENOQUE E SUA CIDADE
Enoque, filho de Jarede, foi o sétimo depois de Adão. Jarede “ensinou a Enoque todos os caminhos de Deus” (Moisés 6:21). “Enoque tinha vinte e cinco anos quando foi ordenado pelas mãos de Adão; e tinha sessenta e cinco quando Adão o abençoou” (D&C 107:48). Ele foi chamado por Deus como profeta e vidente para declarar o arrependimento a uma geração iníqua. Devido ao fato de Enoque ser obediente e submisso, Jeov´ transformou um jovem vacilante e acanhado em um pregador poderoso de retidão. O Senhor pôs seu Espírito sobre Enoque, justificou todas as suas palavras e caminhou com ele (vide Moisés 6:26–34). “E tão grande era a fé que possuía Enoque, que ele conduziu o povo de Deus; e seus inimigos saíram para batalhar contra ele e ele proferiu a palavra do Senhor e a terra tremeu e as montanhas fugiram, sim, de acordo com sua ordem; e os rios de ´gua desviaram-se de seu curso e o rugido dos leões fez-se ouvir no deserto; e todas as nações tremeram grandemente, taõ poderosa era a palavra de Enoque e tão poderosa era o poder da linguagem que Deus lhe dera” (Moisés 7:13). Isto é, Enoque foi fiel ao convênio do SacerdÕcio de Melquizedeque, o que permitiu que Deus lhe fizesse uma promessa, promessa esta que concedeu a Enoque poderes semelhantes aos de Deus (vide Tradução de Joseph Smith, Gênesis 14:27–31; compare Helamã 10:4–10; D&C 84:33–44).14
Devido a sua retidão e ao poder de seu testemunho, Enoque estabeleceu uma sociedade dos puros de coração. Ele estabeleceu Sião, um povo que era “unos de coração e vontade e viviam em retidão; e não havia pobres entre eles” (Moisés 7:18; compare D&C 97:21). Sião representa o m´ximo em termos de interrelacionamento humano, a comunidade ideal, ou, como ensinou o Presidente Spencer W. Kimball, “a mais elevada ordem de sociedade sacerdotal.”15 Enoque e seu povo fundaram uma santa comunidade porque pregaram retidão e aplicaram as doutrinas do evangelho em tudo que faziam, inclusive a aplicação do amor puro de Cristo nas suas relações sociais e a consagração total de si. Por fim foram transladados, ou arrebatados ao céu, sem experimentar a morte. O povo de Enoque andava com Deus e Ele habitou no meio de Sião; e aconteceu que Sião j´ não existia, porque Deus a recebeu em seu prÕprio seio; e daí em diante se começou a dizer: Sião fugiu” (Moisés 7:69). “E os homens que tinham essa fé, entrando nessa ordem de Deus, foram transladados e levados para o céu” (Tradução de Joseph Smith, Gênesis 14:32). “E [Enoque] viu o Senhor e andou com ele e estava perante sua face continuamente; e andou com Deus trezentos e sessenta e cinco anos, tendo quatrocentos e trinta anos quando foi transladado” (D&C 107:49). A sociedade de Enoque se tornou o padrão, o protÕtipo, para todos os homens e mulheres fieis que j´ viveram e que viverão. O ApÕstolo Paulo, portanto, pôde escrever que Abraão, entre muitos, foi um dos que “esperava a cidade que tem fundamentos, da qual o artífice e construtor é Deus” (Hebreus 11:10).
O Profeta Joseph Smith explicou que a translação (transladação) é um poder que pertence ao SacerdÕcio de Melquizedeque, ou seja, uma dimensão da santa ordem de Desu.16 O Presidente John Taylor acrescentou que “os habitantes transladados da cidade de Enoque estão sob a direção de Jesus, o qual é criador de muitos mundos, e que ele, possuindo as chaves do governo de outros planetas, pode, na administração deles, escolher indivíduos da Sião de Enoque, quando apropriado, para fazerem missões a estes outros planeta e, j´ que não haviam morrido, poderão ser preparados por ele para usarem o santo sacerdÕcio para agirem como embaixadores, professores ou mensageiros para aqueles mundos sobre os quais Jesus tem autoridade.”17
NOé E O SACERDÕCIO
Noé, o décimo depois de Adão, foi ordenado ao dez anos (vide D&C 107:52). “Deus fez preparações de antemão,” O élder John Taylor explicou, “e disse a Metusalém que quando o povo fosse destruído, um remanescente de sua descendência iria ocupar a terra e ficaria um primeiro lugar nela. E Metusalém estava tão entusiasmado que oredenou Noé ao sacerdÕcio quando este tinha dez anos. Daí Noé foi o representante de Deus em seus dias.”18
Noé fez muito mais do que a previsão do tempo; foi o administrador legal capacitado por Deus para chamar ao arrependimento uma geração iníqua. “E o Senhor ordenou Noé segundo sua prÕpria ordem e mandou que ele fosse anunciar seu Evangelho aos filhos dos homens, sim, tal como foi dado a Enoque. E aconteceu que Noé clamou ao filhos dos homens para que se arrependessem, mas eles não deram ouvidos a suas palavras.” Além disso, a chamada ao arrependimento não se tratava de uma simples advertência do disatre que estava para vir; foi uma chamada para que se achegassem a Cristo e fossem salvos. Noé disse : “Acreditai e arrependei-vos de vossos pecados e batizai-vos em nome de Jesus Cristo, o Filho de Deus, assim como nossos pais; e recebereis o Espírito Santo a fim de que todas as coisas se manifestem a vÕs” (Moisés 8:19–20, 24; acrescido de leta it´lica). Ao falar da ordem patriarchal do SacerdÕcio de Melquizedeque nos tempos de Noé, O Presidente John Taylor declarou que “todo homem dirigia seus prÕprios afazeres familiares. E os homens proeminentes entre eles exerciam as funções de reis e sacerdotes de Deus.”19
O Profeta Joseph Smith explicou a função de Noé (o arcanjo Gabriel) na hierarquia do sacerdÕcio. Noé “segue Adão no SacerdÕcio, pois foi chamado por Deus para este ofício e foi, na sua época, o pai de todos os viventes e a ele foi dado o domínio sobre todos eles.”20 O Profeta também notou que “as chaves deste sacerdÕcio consistiam em obter a voz (vontade) de Jeov´, o qual falou com ele [Noé] de forma amig´vel e familiar para que continuassem com ele as chaves, os convênios, os poderes e a glÕria com que Deus havia abençoado Adão no início.”21
MELQUIZEDEQUE E ABRAãO
Abraão, conhecido a nÕs como “o pai do fieis,” procurou “as bênçãos dos patriarcas” e o direito de administrar as mesmas (vide Abraão 1:1–3). Ele “não era sÕ um príncipe na terra como também o era nos céus e por seu direito veio à terra na sua época para levar a efeito aquilo que lhe foi designado para fazer. E ele descobriu através de pesquisa genealÕgica que possuía o direito de receber o sacerdÕcio e, ao sabê-lo , orou ao Senhor e exigiu uma ordenação.”22 Seu pai, Ter´, era idÕlatra, de forma que as bênçãos não podiam advir-lhe de pai para filho. E assim ele procurou os conselhos, orientação e autoridade de Melquizedeque, o grande sumo sacerdote da época. O profeta Alma, na sua palestra sobre os antigos que entraram no descanso do Senhor, escolheu Melquizedeque para ilucidar esta doutrina, dizendo: “E agora, meus irmãos, quisera que vos humilh´sseis perante Deus e apresent´sseis frutos dignos do arrependimento, para que também venhais a entrar nesse descanso. Sim, humilhai-vos como o povo nos dias de Melquizedeque, o qual também foi um sumo sacerdote desta mesma ordem [a santa ordem de Deus] de que falei; que também tomou sobre si, para sempre, o sumo sacerdÕcio” (Alma 13:13–14). Deus fez o mesmo juramento com Melquizedeque que fez com Enoque ao conceder-lhe os mesmos poderes, poderes estes que eram semelhantes aos de Deus. Melquizedeque obteve paz em Salém e “seu povo praticou a retidão e obteve o céu e procurou a cidade de Enoque que Deus antes havia tomado, separando-a da terra (vide Tradução de Joseph Smith [TJS], Gênesis 14:25–36).
Os Santos de Deus que viviam naquela época, “a igreja [de Jesus Cristo] dos antigos dias,” chamava o santo sacerdÕcio pelo nome de Melquizedeque (vide D&C 107:2–4). A revelação moderna nos informa que “Esaías . . . viveu nos dias de Abraão e foi abençoado por ele—Esse Abraão recebeu o sacerdÕcio de Melquizedeque, que o recebeu através da linhagem de seus pais, até Noé” (D&C 84:13–14). Além disso, parece que Abraão recebeu direitos e privilégios a mais de Melquizedeque. O pai dos fieis buscou o poder de administrar vidas sem fim, a plenitude dos poderes do sacerdÕcio. De acordo com o élder Franklin D. Richards, o Profeta Joseph Smith expicara que o poder de Melquizedeque “não era sÕ o poder de um profeta, nem de um apÕstolo, nem de um patriarca, e sim o de um rei e sacerdote de Deus, para abrir as janelas dos céus e derramar a paz e a lei de vida eterna ao homem. E nenhum homem pode chegar a ser co-herdeiro com Jesus Cristo sem receber a administração das ordenanças por alguém que tenha o mesmo poder e autoridade que Melquizedeque possuía.”23>
James Burgess gravou um sermão de Joseph Smith, uma espécie de coment´rio doutrin´rio sobre o capítulo 7 de Hebreus, em que ele falou de três ordens do sacerdÕcio: o aarônico, o patriarcal (o novo convênio sempiterno de casamento, o qual Abraão possuía), e a plenitude do sacerdÕcio (a realização das bênçãos prometidas no eterno convênio de casamento). Conforme esta reportagem, o Profeta disse:
Aqui Paulo aborda três sacerdÕcios diferentes, o seja, o sacerdÕcio de Aarão, de Abraão e de Melquizedeque. O sacerdÕcio que Abraão possuía era de maior autoridade do que a do SacerdÕcio Levítico (de Aarão) e o de Melquizedeque tinha mais poder do que o de Abraão. . . . Eu lhes pergunto: Havia um poder de selamento inerente no SacerdÕcio Levítico que pudesse admitir um homem à presença de Deus? Não. Mas o sacerdÕcio de Abraão era de poder ou sacerdÕcio mais exaltado, de forma que ele pôde conversar e andar com Deus. E ainda, considerem quão grande que era esse homem [Melquizedeque], tendo até o grande patriarca Abraão dado um décimo [dízimo] de todos os seus bens a ele e depois recebido uma bênçâo pelas mãos de Melquizedeque, sim a lei derradeira ou plenitude do sacerdÕcio que o tornou rei e sacerdote segundo a ordem de Melquizedeque, ou a vida eterna.24
Em resumo, o Profeta Joseph explicou: “Abraão disse a Melquizedeque: eu acredito tudo que me ensinaste a respeito do sacerdÕcio e a vinda do Filho do Homem, portanto Melquizedeque ordenou Abraão e se despediu dele. Abraão se regozijou, dizendo: Agora possuo o sacerdÕcio.”25 As chaves do sacerdÕcio passaram por Isaque, José, Efraim, e assim por diante ao longo dos séculos até os dias de Moisés. Até que ponto se usava o poder do SacerdÕcio de Melquizedeque entre os israelitas durante seu cativeiro no Egito, não ficou claro.
DE MOISÈS A CRISTO
Aprendemos por meio da revelação moderna que Moisés foi ordenado ao sumo sacerdÕcio por seu sogro, Jetro o midianita. Essa linhagem do sacerdÕcio passou a Jetro por administradores legais antigos, porém pouco conhecidos, tais como Calebe, EliŨ, Jeremias, Gade e Esaías. A revelação fala entaõ da autoridade divina ter vindo através de Abraão, Melquizedeque, Noé, Enoque, Abel e Adão (vide D&C 84:6–16). O fato do sacerdÕcio ser dado a Jetro através de Midiã sugere—outra vez, como foi o caso do sacerdÕcio passar por Abel, bem como Sete, (vide D&C 84:6–16; 107:40)—que havia mais de uma linha de autoridade. Pode ser que o sacerdÕcio fosse transmitido por v´rias linhas, mas as chaves, ou seja o direito de presidência, permaneciam com os patriarcas ordenados, os quais as transmitiam a outros.
Ao falar acerca dos filhos de Israel, o Profeta declarou: “Seu governo era o de uma teocracia; faziam-se as leis por inspiração de Deus que escolhia os homens certos para administr´-las; Ele era seu Deus e eles eram seu povo. Moisés recebeu a palavra do Senhor de Deus mesmo; ele era a voz de Deus para Aarão e Aarão ensinava ao povo tanto em assuntos civis como eclesi´sticos; os dois eram um, não havia separação.”26 Moisés procurou diligentemente levar os filhos de Israel a um nível de maturação espiritual em que pudessem desfrutar as mais elevadas bênçãos do sacerdÕcio—o privilégio de entrar no descanso do Senhor, ou seja, na presença divina. O desejo de Jeov´ era que os israelitas se tornassem “um reino de sacerdotes, uma santa nação” (êxodo 19:6). “Eles, porém, endureceram o coração e não puderam suportar sua presença; portanto o Senhor, em sua ira, pois sua ira estavam acesa contra eles, jurou que enquanto estivessem no deserto não entrariam para o seu descanso, descanso esse que é a plenitude de sua glÕria. Portanto tirou a Moisés do meio deles, como também o Santo SacerdÕcio; e o sacerdÕcio menor continuou [com eles]” (D&C 84:19, 24–26; compare D&C 107:18–19). Isso significa que a m´ vontade de Israel de entrar para a presença do Senhor (vide êxodo 20:19) mostrou sua falta de preparo, como uma nação, de ver Deus e de ser portador do santo sacerdÕcio e recebedor de seus privilégios incompar´veis. Por exemplo, como indicou Abin´di, muitos dos filhos de Israel não compreendiam o significado da lei de Moisés como um meio de chegar a um final maior. Ele perguntou: “Ora, entendiam eles a lei? Digo-vos que não; nem todos entendiam a lei; e isso por causa da dureza de seu coração; portanto não compreendiam que ninguém poderia ser salvo, a não ser pela redenção de Deus” (Mosias 13:32).
Então disse o Senhor a Moisés: Lavra outras duas t´buas de pedra como as primeiras e escreverei também nelas as palavras da lei, de acordo com o que se escreveu nas t´buas que tu quebraste; mas não ser´ de acordo com as primeiras, porque tirarei de seu meio o sacerdÕcio; portanto minha santa ordem, assim como suas ordenanças, não irão adiante deles; pois minha presença não ir´ em seu meio, para que eu não os destrua.
Mas darei a eles a lei, como nas primeiras, mas ser´ segundo a lei de um mandamento carnal; porque na minha ira jurei que não entrariam em minha presença, em meu descanso, nos dias de sua peregrinação. (Tradução de Joseph Smith, êxodo 34:1–2; vide também a Tradução de Joseph Smith, Deuteronômio 10:1–2)
Quando Moisés foi transladado, as chaves do SacerdÕcio de Melquizedeque foram retiradas de entre a congregação dos israelitas e a ordem patriarcal do sacerdÕcio cessou. é verdade que ainda havia homens como Aarão, seus filhos e os setenta élderes de Israel que possuíam o SacerdÕcio de Melquizedeque. Mas o SacerdÕcio de Melquizedeque deixou se ser passado de pai para filho. Daquele momento em diante, o sacerdÕcio de administrações entre o povo em geral era o SacerdÕcio Aarônico. A ordenação de certos homens ao SacerdÕcio de Melquizedeque e a concessão de suas chaves acontecia por meio de concessão especial do Senhor.27
Portanto o Presidente Joseph Fielding Smith esclareceu o assunto da seguinte maneira:
Em Israel, o povo comum, as pessoas em geral, não exerciam as funções do sacerdÕcio na sua plenitude, mas seus trabalhos e ministrações se limitavam, em grande parte, aos do SacerdÕcio Aarônico. A retirada do sacerdÕcio maior foi uma retirada do povo em geral, mas o Senhor ainda deixou entre eles alguns homens que possuíam o SacerdÕcio de Melquizedeque e tinham poder de administrar suas ordenanças, à medida que tais ordenanças eram concedidas ao povo pelo Senhor. Portanto Samuel, Isaías, Jeremias, Daniel, Ezequiel, Elias, o Profeta, e outros entre os profetas possuíam o SacerdÕcio de Melquizedeque, de maneira que profetizavam e instruíam o povo conforme eram dirigidos pelo Espírito do Senhor. As obras feitas por eles eram v´lidas devido ao sacerdÕcio [maior] o qual não se manifestava de modo geral entre o povo de Israel durante todos aqueles anos.
O Presidente Smith acrescenta este detalhe importante: “Podemos supor, com muita razão, que nunca havia uma época em que não houvesse pelo menos um homem em Israel que possuía o sacerdÕcio maior (tendo-o recebido por autorização especial) e que tinha autorização de oficiar as ordenanças.”28 Ou, como ele escreveu em outra ocasião:
O Senhor, por necessidade, tem mantido na terra servos autorizados que possuíam o sacerdÕcio desde os dias de Adão até o presente momento; de fato, não houve nunca um momento desde o início em que não houvesse homens na terra portadores do Santo SacerdÕcio. Até nos dias de apostasia, . . . nosso Pai do céu estava em controle e mantinha na terra seus servos, devidamente autorizados, para dirigir sua obra e reprimir, pelo menos até certo ponto, a devastação e corrupção dos poderes malignos. Estes servos não tinham autorização nem de organizar a Igreja nem de administrar as ordenanças do evangelho, mas moderavam os avanços do mal até o ponto que o Senhor julgava necess´rio.29
Perguntaram a Joseph Smith: “Foi retirado o SacerdÕcio de Melquizedeque quando Moisés morreu?” O Profeta declarou [e este princípio guia nosso entendimento de quem possuía o SacerdÕcio Maior desde a transladação de Moisés até os dias de Cristo] que “todo sacerdÕcio é de Melquizedeque, mas h´ porções ou graus diferentes dele. Aquela porção foi retirada que fez com que Moisés pudesse falara face a face com Deus, mas a parte que possibilitava o ministério de anjos permaneceu.” Esta observação se trata de um esclarecimento importante: “Todos os profetas possuíam o SacerdÕcio de Melquizedeque e foram ordenados por Deus mesmo,” 30 significando que o prÕprio Deus ou fez a ordenação ou mandou um mensageiro divino para fazê-la. Numa renuião de Primeira Presidência e o QuÕrum dos Doze no dia 22 de abril de 1849, o élder John Taylor perguntou ao Presidente Brigham Young, “se Elias, o Profeta, Davi, Salomão e os Profetas tinham o SacerdÕcio Maior, como é que isso podia ser j´ que o Senhor o retirou com Moisés.” Depois de muita discussão, o Presidente Young “disse que não sabia, mas que desejava saber.” O élder Taylor, que não havia estado presente com o Profeta Joseph quando este lhe deu a resposta em 1841, por estar de missão na Inglaterra, “pensava que talvez o Senhor mesmo tivesse o conferido de tempos em tempos a quem ele julgasse digno, mas sem dar-lhes licença de pass´-lo adiante a outros.”31
Então podemos concluir que todos os profetas do Velho Testamento possuíam o SacerdÕcio de Melquizedeque. Não se sabe exatamente como Isa´is e Miqueias, que eram contemporâneos, interagiam, ou se relacionavam, ou quem supervisionava quem. Quem presidia quando Jeremias, Ezequiel, Habacuque, Obadias e Leí ministrava no ofício profético, tampouco sabemos. Para mim é inconcebível que tivessem executado sua obra profética independentes uns dos outros. Aquele Senhor que os chamou e deu-lhes poder é um Deus de ordem e não de confusão (vide D&C 132:8) e seria natural supor que sua obra era coordenada e dirigida por alguém que tivesse as chaves apropriadas do reino, ou seja, o direito de presidir, sim, o poder administrador (vide D&C 107:8). Estes princípios, infelizmente, não se encontram no registro atual do Velho Tesatmento.
Somente através da revelação moderna é que descobrimos que as ordenanças da Casa do Senhor estavam com os homens desde o princípio. O livro de Abraão fala das “grandes palavras chaves do Santo SacerdÕcio, conforme foram reveladas a Adão no Jardim do éden e também a Sete, a Noé a Melquizedeque, a Abraão e a todos a quem se revelou o SacerdÕcio” (Facsímile No. 2, Explicação, Figura 3). A revelação moderna nos diz ainda mais, que as sagradas ordenanças, tais como as abluções e unções, se faziam nos antigos templos, os quais, conforme disse o Senhor, “meu povo sempre recebe ordem de construir a meu santo nome” (D&C 124:39) e que “Natã, meu servo, e outros profetas” possuíam as chaves do poder de selamento com relação ao casamento eterno e a união sempre duradoura de famílias (D&C 132:39). Certamente quando Deus decidia disponibilizar as ordenanças do sacerdÕcio a certos indivíduos, inclusive as bênçãos da investidura e do selamento eterno, ele podia conferi-las ou no deserto ou nos cumes das montanhas, em todo lugar, em todos os tempos.
As passagens das escrituras que acabamos de citar também parecem sugerir que nos antigos tabern´culos e templos se fazia mais do que os ritos sacrificais do SacerdÕcio Aarônico. Não est´ clara a relação exata entre os profetas que possuíam o SacerdÕcio de Melquizedeque e os descendentes literais de Aarão [que possuíam as chaves das ordenanças levíticas]. O élder Bruce R. McConkie, porém, esclareceu o seguinte ponto: “Não deixem o fato da administração da lei mosaica ser feita pelo SacerdÕcio Aarônico confundi-los. . . . Onde quer que o SacerdÕcio de Melquizedeque esteja, h´ também a plenitude do evangelho e lembrem-se de que todos os profetas possuíam o SacerdÕcio de Melquizedeque.” Ele continua: “O SacerdÕcio de Melquizedeque sempre tem dirigido o caminho do SacerdÕcio Aarônico. Todos os profetas ocupavam um cargo na hierarquia da época.”32 Em resumo, “em todas as épocas do mundo, sempre que o Senhor deu uma dispensação do sacerdÕcio a qualquer homem ou grupo de homens, por revelação real, esse poder sempre foi dado” (D&C 128:9).
A colônia leíta, um ramo de antigo Israel que Deus levou às Américas, também levou os sacerdÕcio ao Novo Mundo. Leí foi profeta e, como j´ vimos, teria possuído o SacerdÕcio de Melquizedeque. Os nefitas desfrutaram as bênçãos da plenitude do evangelho sempiterno, um evangelho que é administrado pelo sacerdÕcio maior. Não havia levitas entre os nefitas, portanto podemos supor que ofereciam sacrifícios e efetuavam as ordenanças e devidas ministrações de sacerdotes e mestres sob a direção do SacerdÕcio de Melquizedeque.33 O Presidente John Taylor explicou que Morôni possuía o sacerdÕcio maior, sim “Morôni, um dos profetas de Deus neste continente [o americano]. A Néfi, outro servo de Deus neste continente, foram revelados o evangelho, suas chaves e poderes.”34
ELIAS, O PROFETA, E AS CHAVES DO SACERDÕCIO
Uma declaração de Joseph Smith parece, à primeira vista, pelo menos um pouco, contradizer o que expusemos anteriormente com relação às chaves do sacerdÕcio em antigo Israel. O Profeta Joseph afirmou: “Elias, o Profeta, foi o Ũltimo profeta que possuía as chaves do sacerdÕcio e é aquele que antes da Ũltima dispensação restaurar´ a autoridade e entregar´ as chaves do sacerdÕcio para que todas as ordenanças sejam observadas em retidão.”36 Elias, o Profeta, viveu por volta de 850 A.C. Se esta declaração fosse interpretada ao pé da letra, nenhum profeta depois de Elias, pelo menos no Velho Testamento e no Livro de MÕrmon, teria possuído as chaves do santo sacerdÕcio. Seriam incluídos nesta observação tais homens como Eliseu, Joel, Oseias, Jonas, AmÕs, Isaías, Miqueias, Naum, Jeremias, Sofonias, Obadias, Daniel, Habacuque e Ezequiel, bem como Leí e o ramo americano de Israel. Ser´ que devemos entender por isso que nenhum destes homens possuía as chaves do sacerdÕcio? Ser´ que não havia nenhum direito de presidência e nenhum poder de administração no que diz respeito aos convênios e às ordenanças do evangelho?
A citação em questão é de um discurso sobre o sacerdÕcio proferido em uma conferência da Igreja que se realizou em Nauvoo no mês de outubro do ano de 1840. O Profeta Joseph começou por definir o sacerdÕcio e então observou que o SacerdÕcio de Melquizedeque “é a grande fonte e a ele pertencem a mais alta autoridade sacerdotal e as chaves do Reino de Deus em todas as épocas do mundo até a Ũltima posteridade na terra e é o meio pelo qual se revelam todo conhecimento e doutrina, o plano de salvação e todos os assuntos importantes vindos do céu.” Ele continuou a discursar e disse que “todos os outros sacerdÕcios são somente partes, ramificações, poderes e bênçãos pertencentes ao mesmo [o SacerdÕcio de Melquizedeque] e são mantidos, controlados e dirigidos por tal sacerdÕcio. é o canal pelo qual o Todo Poderoso começou a revelar sua glÕria no início da criação da terra e através do qual Ele continua a revelar-se aos filhos dos homens no presente momento e pelo qual Ele revelar´ seus propÕsitos até a consumação dos tempos.”36
Daí o Profeta Joseph palestrou a respeito do papel de Miguel, ou seja Adão, como a pessoa designada para supervisionar as revelações e ordenanças de Deus para o seu povo, enfatizando, como Joseph fez tantas vezes, que as ordenanças do evangelho são as mesmas, são imut´veis para sempre.37 Então ele passou a descrever a descendência dos poderes e ritos do sacerdÕcio através de Abel, Caim, Enoque, Lameque e Noé. O Profeta providenciou informações muito importantes a respeito de Enoque e a doutrina de transladação. “Ora, a doutrina de translação,” conforme ele ensinou, “é um poder que pertence a este SacerdÕcio [de Melquizedeque]. H´ muitas coisas que pertencem aos poderes do SacerdÕcio e às chaves do mesmo que têm sido ocultadas desde até antes da fundação do mundo; foram escondidas dos s´bios e prudentes para serem reveladas nos Ũltimos tempos.”38
Aí Joseph Smith começou a discutir em grandes pormenores a restauração de ofertas sacrificais como parte da restituição de todas as coisas, pois “todas as ordenanças e todos os deveres que j´ foram exigidos pelo SacerdÕcio . . . em qualquer época anterior, serão obtidos de novo, levando a efeito a restauração mencionada pela boca de todos os santos profetas. . . . A oferta de sacrifícios animais sempre tem sido vinculada aos deveres do SacerdÕcio e faz parte deles. Começou pelo SacerdÕcio e continuar´ de geração em geração até depois da segunda vinda de Cristo. Temos frequentemente mencionado que os servos do Deus Altíssimo ofereciam sacrifícios nos tempos antigos, até bem antes da lei de Moisés, tais ordenanças recomeçarão quando o SacerdÕcio for restaurado junto com toda a sua autoridade, todos os seus poderes e todas as suas bênçãos.” Falado isso, ele declarou: “Elias, o Profeta, foi o Ũltimo profeta que possuía as chaves do sacerdÕcio e é aquele que antes da Ũltima dispensação restaurar´ a autoridade e entregar´ as chaves do sacerdÕcio para que todas as ordenanças sejam observadas em retidão. é verdade,” afirmou o Profeta, “que o Salvador possuía a autoridade e o poder de conceder esta bênção, mas os filhos de Levi não eram dignos. ‘E enviarei Elias, o Profeta, antes que venha o grande e terrível dia do Senhor,’ etc., etc. Por que enviar Elias, o Profeta? Porque ele possui as chaves da autoridade de administrar todas as ordenanças do SacerdÕcio.” Outra vez ele acrescentou que “estes sacrifícios, bem como todas as ordenanças pertencentes ao SacerdÕcio, serão plenamente restaurados e observados em todos os seus poderes, ramificações e bênçãos, quando o Templo do Senhor for construído e os filhos de Levi forem purificados. Tudo isso sempre existiu e sempre existir´ quando os poderes do SacerdÕcio de Melquizedeque forem suficientemente manifestados, senão, como se realizar´ a restituição de todas as coisas faladas pelos santos profetas?”40
Lembrem-se de que esse sermão foi proferido no mês de outubro de 1840, mais de quatro anos depois que Elias, o Profeta, havia vindo ao Templo de Kirtland (vide D&C 110). Mas Joseph Smith disse que Elias, o Profeta “restaurar´, antes da Ũltima dispensação”— significando, naturalmente, antes que se complete a Ũltima dispensação—“a autoridade e entregar´ as chaves do SacerdÕcio, para que todas as ordenanças sejam observadas em retidão.” Pode ser que o Profeta tenha se referido a um evento do passado como se ainda estivesse para acontecer. Por outro lado, o contexto do sermão pode sugerir que uma parte do papel de Elias, o Profeta, aquele que restauraria “a plenitude do sacerdÕcio”39 seja a de restaurar as chaves relativas a todas as ordenanças, inclusive as do sacrifício de animais, algo que foi profetizado por Malaquias (4:5–6), citado por Jesus aos nefitas (3 Néfi 25:5–6), escrito com umas variações por Morôni (D&C 2) e descrito na revelação moderna (D&C 84:31–32). Pode-se pensar: ser´ que Elias, o Profeta entregar´ aquelas chaves específicas durante o Conselho de Adão-Ondi-Amã, a grande reunião de líderes do sacerdÕcio— aqueles que possuíram as chaves de autoridade em todos os tempos—logo antes da vinda do Senhor em glÕria?41
Sou grato a meu amigo e colega Robert J. Matthews por ter compartilhado comigo os seguintes princípios, cada um dos quais aumenta nosso entendimento do assunto de chaves do sacerdÕcio:
1. é evidente que uma pessoa que possui as chaves pode “dar” as chaves a outro sem ela mesma perdê-las.
2. H´ uma diferença entre possuir as chaves para poder exercer certas funções na Igreja e ter a designação de passar as chaves a outros. Tanto Moisés como Elias, o Profeta, deram chaves a Pedro, Tiago e João no Monte de Transfiguração,42 mesmo assim, foram Moisés e Elias, o Profeta, que deram as chaves a Joseph Smith e Oliver Cowdery em 1836. Sem dŨvida, Pedro possuía chaves suficientes das “chaves de Elias, o Profeta” para governar a Igreja durante a dispensação do meridiano dos tempos, porém o Senhor não mandou Pedro transferir as chaves das ordenanças de selamento a Joseph e Oliver.
3. Declara-se mais de uma vez no Livro de MÕrmon que os Doze do hemisfério ocidental seriam sujeitos aos Doze de Jerusalém (vide 1 Néfi 12:9; MÕrmon 3:18–19). Tudo isso sugere, outra vez, que um povo pode possuir chaves do sacerdÕcio suficientes para conduzer o trabalho da Igreja sem ter o direito [ou chaves] de passar as mesmas a dispensações futuras.
4. Na verdade, todas as chaves e poderes do sacerdÕcio ainda não nos foram entregues em nossos dias. Ainda restam poderes a serem restauradas, tais como as chaves de criação, transladação e ressurreição.43
Em resumo, as chaves do reino de Deus têm estado sempre na terra quando o sacerdÕcio maior também estava, pois dever´ haver ordem na casa de Deus. Aquelas chaves foram possuídas pelos ungidos do Senhor depois da época de Elias, o Profeta. Este Elias não foi o Ũltimo homem a possuir as chaves na era do Vellho Testamento, visto que muitos as possuíam depois do ministério dele, mas ele foi o Ũltimo do Velho Testamento a ser autorizado para voltar durante a dispensação da plenitude dos tempos para assegurar que “todas as ordenanças do evangelho fossem observadas em retidão.”44
CONCLUSãO
Amon explicou ao Rei Lími que “um vidente é tanto revelador como profeta também e não h´ dom maior que o homem possa ter, a não ser que ele possua o poder de Deus, que nenhum homem pode possuir; não obstante o homem pode receber grande poder de Deus. Um vidente, porém, pode saber tanto de coisas passadas como de coisas futuras; e por meio deles todas as coisas serão reveladas, ou seja, coisas secretas serão manifestadas e coisas ocultas virão à luz. . . . Assim, Deus providenciou um meio para que o homem, pela fé, pudesse realizar grandes milagres; portanto ele se torna um grande benefício para seus semelhantes” (Mosias 8:16–18).
NÕs, os Santos dos Ũltimos Dias, amamos o Velho Testamento. Valorizamos as lições e a linguagem de suas sagradas p´ginas. Sabemos, contudo, que ele não chegou a nÕs de forma original e pura. Muitas verdades claras e preciosas e muitos convênios do Senhor foram retirados e ocultados por pessoas maldosas (vide 1 Néfi 13:20–32). Não est´ mais na Bíblia o conhecimento de que a plenitude do evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo j´ havia existido entre os povos antigos. Hoje também nos falta o conceito de que os profetas do Velho Testamento eram cristãos que ensinavam doutrinas cristãs e administravam os convênios e ordenanças de Cristo. Mas louvado seja Deus que um vidente foi suscitado, sim, vidente este que era um “vidente escolhido” (2 Néfii 3:6–7), sim, o prÕprio Joseph Smith, que iniciou a obra de restaurar à Bíblia muitas verdades claras e preciosas que haviam sido perdidas. Jeov´ ordenou a Moisés que escrevesse as coisas que lhe seriam pronunciadas. “E agora, Moisés, meu filho, falar-te-ei a respeito desta Terra na qual est´s; e escrever´s as coisas que te direi. E no dia em que os filhos dos homens menosprezarem minhas palavras e tirarem muitas delas do livro que escrever´s, eis que levantarei outro semelhante a ti; e elas estarão outra vez ao alcance dos filhos dos homens—entre todos os que crerem” (Moisés 1:40–41).
Um estudo do Velho Testamento pela luz do evangelho restaurado liga os Santos dos Ũltimos Dias aos Santos dos dias antigos. Tal estudo se torna muito mais do que uma simples lição de histÕria, pois a prÕpria revelação declara: “Ora, esse mesmo SacerdÕcio, que existia no princípio, existir´ também no fim do mundo” (Moisés 6:7). O que era verdade para os antigos é verdade para nÕs hoje em dia. Aquilo que os inspirou e os motivou pode e deve nos inspirar a fidelidade e a devoção contínuas aos nossos convênios. A mesma autoridade por meio da qual os antigos foram batizados, confirmados, investidos [dotados], lavados, ungidos, casados e selados para a vida eterna, sim, aquela mesma autoridade foi entregue ao Profeta Joseph Smith por mensageiros celestes. é minha oração sincera que todos nÕs possamos crer, aceitar e alegrar-nos pelo tesouro de entendimento doutrin´rio que nos foi dado através da revelação moderna.
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Vide Joseph Fielding Smith, The Way to Perfection [O caminho da perfeição] (Salt Lake City: Deseret Book, 1970), 73.
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