Blog de Robert L. Millet


Diretor de Publicações do Centro de Estudos Religiosos da BYU





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A Redescoberta de um Mundo Antigo

POSTED BY: holzapfel

07/17/09


 O Centro de Estudos Religiosos da BYU [BYU Religious Studies Center] promove pesquisas e a publicação de artigos doutos através de bolsas e das próprias publicações do Centro. Um aspecto da missão do CER é o de incentivar a reconstrução do mundo das escrituras e da Restauração para nos dar um contexto para facilitar os estudos.

Atualmente sou codiretor do programa de Estudos no Exterior da BYU em Roma e Atenas junto com Gary Hatch, reitor adjunto de Educação Geral e Programas de Honras. Quarenta alunos estão conosco para esta aventura, e que aventura! Faz calor, está muito húmido e é difícil levar todos a um museu ou local arqueológico devido ao sistema complicado e congestionado de ônibus, trem e metrô.Como se pode imaginar, passamos muito tempo passeando pelas ruas da antiga Roma. Em alguns lugares, pode ser que até sigamos os mesmos passos de Pedro e Paulo. Na semana que vem vamos viajar para mais longe, até as antigas ruínas de Pompeia, perto da cidade moderna de Nápoles na Itália.

Já fui a Pompeia várias vezes depois da minha primeria visita com um grupo de estudantes colegiais de York, Estado de Maine, em 1972. Cada visita subsequente tem me deixado cada vez mais melancólico e por isso não estou muito a fim de fazer outra viagem. Fico angustiado pelas imagens de morte na cidade, especialmente os moldes de gesso dos corpos daqueles que lá morreram há tantos anos. Não obstante, tenho me preparado para a excursão através da leitura de um novo livro sobre Pompeia de Mary Beard, The Fires of Vesuvius: Pompeii Lost and Found [Os fogos do Vesúvio: Pompeia Perdida e Achada] (Cambridge, MA: The Belknap Press of Harvard University Press, 2008).

O livro de Beard me lembra que a história do passado é muito mais complicado do que imaginamos. Este livro é bom para qualquer pessoa que sonhe em ir a Pompeia ou que queira entender a complexidade da história daquela cidade. Em primeiro lugar, a autora nos explica que Pompeia é mais que uma “mera cidade congelada no tempo” (9). Em capítulo após capítulo a autora nos diz que: “Nem tudo é como parece à primeira vista” (13). Já tinha havido destruição antes da erupção famosa de 79 AD (ela descorda que a data do cataclismo foi de 25 de agosto daquele ano) e logo após o trágico desastre houve pilhagem no local. Então, em 1943, as bombas das forças aliadas destruíram ainda mais, complicando ainda mais a história. Apesar disso, Beard observa: “É verdade que esta cidade nos oferece uma vista mais vívida das pessoas e de sua vida do que em qualquer outra parte do antigo mundo romano” (15). Porém, “O contexto maior e as respostas a muitas perguntas básicas sobre a cidade, na verdade, permanecem muito obscuros” (16).

Beard nos proporciona retratos em palavras desta história de tantas nuanças e complexidades que nos ajudam a enxergar além da reconstrução moderna da cidade e da nossa imaginação hollywoodiana do que pode ter sido a realidade. Na próxima vez que lerem a segunda parte do Novo Testamento, considerem o estudo histórico e cultural a respeito da época para preencher as lacunas do relato no livro de Atos. Tal estudo revelará um mundo interessante e complexo, dando um contexto mais âmplo aos escritos de Paulo, Lucas, Pedro e outros.



Courtesy Community of Christ Archives, Independence, Missouri.

 Blog do convidado especial Kent P. Jackson, professor de escrituras antigas.

Neste mês agora celebramos o 179º aniversário de algo que a maioria dos Santos dos Últimos Dias desconhecem. Foi em junho de 1830, apenas dois meses depois da organização da Igreja, quando o Profeta Joseph Smith iniciou o trabalho da tradução da Bíblia. Hoje em dia chamamo-la a Tradução de Joseph Smith (empregando a sigla TJS), mas o próprio Profeta a chamava de a Nova Tradução. As primeiras dezenove páginas, reveladas entre junho de 1830 e o fim daquele ano, contêm sua revisão dos primeiros capítulos de Gênesis. Quando se criou a Pérola de Grande Valor em 1851, aqueles capítulos de Gênesis foram incluídos no livro, onde permanecem até hoje. Chamam-se o Livro de Moisés.

Há algo de novo na Nova Tradução? Vamos examinar um capítulo só, o primeiro capítulo da tradução, revelada em junho de 1830.

O atual capítulo 1 do Livro de Moisés consiste no relato de uma visão que Moisés presenciou antes do Senhor revelar-lhe o relato da criação do mundo. Assim, trata-se de prefácio do livro de Gênesis. Este é um dos capítulos mais notáveis das escrituras e está repleto de doutrinas que destacam os Santos dos Últimos Dias dentre todos os outros que creem na Bíblia. Embora esta visão de Moisés seja um evento bíblico que se realizou num contexto bíblico, não há nenhuma menção dela no Velho Testamento. Não há nada semelhante na Bíblia, mas se trata de uma das grandes tesouros da Restauração—uma verdadeira pérola de grande valor.

Neste único capítulo aprendemos muito.

Moisés fala com Deus “face a face” em termos que indicam fortemente que em verdade Deus tem rosto. Aprendemos a respeito do Filho Unigênito do Pai. Ao passo que o Pai fala com Moisés e lhe ensina acerca de Jesus Cristo, a escritura nos lembra em termos claros de que o Pai e o Filho são seres divinos separados e distintos. Aprendemos também a respeito de nós mesmos: que armados só de nossos próprios recursos não somos nada. Mesmo assim, somos filhos de Deus criados à imagem e semelhança de seu Filho Unigênito e dotados de potencial enorme.

Aprendemos sobre a glória de Deus, o poder celestial que irradia dele e o rodeia. Os humanos precisam ser transfigurados para sobreviver na glória de Deus, mas Satanás só pode fingir tê-la e de fato não a possui de forma alguma. Vemos Deus e Satanás juxtapostos num contraste marcante e aprendemos que Satanás tem a necessidade patológica de ser adorado e só procura satisfazer seus próprios interesses.

Aprendemos também a respeito do poder de Deus e de suas criações assombrosas. Moisés, ao estar cercado da glória de Deus, pôde ver todas as partículas desta terra e discernir todas as almas no planeta. Até viu outros mundos habitados, mundos sem fim. Ele aprendeu que Cristo é o Criador de todos aqueles mundos e aprendeu que a obra e glória de Deus e levar a efeito a imortalidade e vida eterna de seus filhos que habitam nestes mundos.

Nem é preciso dizer que nada disso fazia parte da crença das principais igrejas cristãs na época de junho de 1830 quando o Senhor revelou estas coisas a Joseph Smith. De fato há muito de novo na Nova Tradução, e aqui só falamos do primeiro capítulo.

(”tags” só disponíveis em inglês)


Lembra-te do Dia do Sábado

POSTED BY: holzapfel

06/08/09


O livro de Êxodo nos conserva os Dez Mandamentos, inclusive o quarto deles: “Lembra-te do dia do sábado, para o santificar” (Êxodo 20:8). Tem-se discutido e debatido há muito tempo o significado do quarto mandamento. Felizmente Craig Harline, professor de história da BYU, redigiu a história ao longo dos séculos dos esforços feitos pela humanidade no sentido de designar e consagrar um dia especial entre todos da semana. O título do livro de Harline é Sunday: A History of the First Day from Babylonia to the Super Bowl [Domingo: a história do Primeiro Dia desde a Babilônia até o Super Bowl (campeonato de futebol profissional americano que sempre se realiza num domingo do mês de janeiro)] (New York: Doubleday, 2007).

O relato de Harline começa num domingo de Super Bowl, focalizando na reação de sua avó (que tinha noventa anos na época) em certo domingo enquanto a família se reunia para assistir ao campeonato. Por fim ela saiu da sala perguntando-se a si mesma como é que a sociedade teria chegado a este ponto. Ele revela que também havia se preocupado com isso, mas por um motivo diferente. Ele recorda que ficou chocado pelo fato de domingo fazer parte do ‘Domingo de Super Bowl.’ “Como terá acontecido isso?” (viii). O livro responde à pergunta.

O autor é um excelente escritor e observador perspicaz quando aos lugares geográficos e povos do mundo e inclui sua anáolise de textos antigos e modernos. Ele não somente conta a história de palavras importantes como sábado e domingo como também inclui experiências da vida de pessoas reais que também procuraram entender o significado mais profundo de festivais religiosos e dias santos. Ele retrata a vida nas antigas regiões em volta do Mar Mediterraneo, bem como na Europa medieval e moderna, inclusive na Inglaterra e nos Estados Unidos dos séculos dezenove e vinte. Eis dois esclarecimentos entre centenas que me ajudaram a reconstruir o passado para poder apreciar o presente.

Primeiro, a criação do “sábado à tarde livre” na Inglaterra foi o início do moderno “fim de semana.” Muitos países “adotaram tanto a expressão como a prática [inglesa] do ‘fim de semana’” logo depois da Primeira Guerra Mundial (217). Esta nova formulação da semana, que passou de uma semana de seis dias úteis para uma de cinco e meio, proporcionou mais oportunidades de descanso e participação de atividades de lazer. Algumas pessoas diziam que o propósito da tarde livre nos sábados era para permitir que o povo fizesse seus afazeres pessoais no sábado, deixando o domingo livre para a meditação calma e adoração ao Senhor, ou seja, o chamado “domingo silencioso” da tradição inglesa (218). Porém, em vez disso, “aqueles que queriam liberalizar o domingo inglês alegavam que devido ao aumento de horas livres, as novas oportunidades e instalações para o lazer não eram suficientes para acomodar todos aqueles que queriam usufruí-las, a não ser que estivessem disponíveis também aos domingos” (218).

Segundo, para algumas pessoas, praticar esportes no domingo se justificou pela ideia “nobre” de que os esportes “podiam transmitir virtudes morais” tais como “unidade (de equipe), disciplina, altruísmo e mais” (261). De um ponto de vista, participar (não assistir) em “bons esportes” era melhor que jogar cartas ou desperiçar tempo nos bares. Um inglês argumentava que “nossos esportes nos mantêm saudáveis e fazem que evitemos os maus hábitos de beber, ficar acordados até muito tarde, etc.” No entanto, o fato de agluns praticarem esportes no domingo criava “mais trabalho para os outros” (261). Isso se tornou ainda mais evidente com a mudança de praticar esportes para a de assistir às partidas de vários esportes aos domingos.

Harline mostra que as práticas sabatinas continuam a mudar com o passar do tempo e acrescenta: “Parece ponto pacífico que este processo de mudança continuará: O domingo se transformará à medida que o mundo transforma.” Não obstante, ele opina: “Também é ponto pacífico que quaisquer que sejam as mundanças, o domingo sempre manterá seu caráter de extraordinário, independente de como as pessoas o encararem” (381).

Aprendi muito por meio do meu colega e utilizarei algumas de suas ideias convincentes nas minhas aulas de Novo Testamento, ao ensinar sobre a controvérsia entre Jesus e os judeus acerca do sábado, conforme registrado nos livros evangélicos [Mateus, Marcos, Lucas e João], e também ao lecionar a respeito de revelação moderna referente ao dia santo do Senhor, conforme se encontra na seção 59 de Doutrina e Convênios.

(“tags” só disponíveis em inglês)


Cristãos na Terra Santa

POSTED BY: holzapfel

06/01/09


Durante o mês de ramadã, os muçulmanos jejuam todos os dias da alvorada até o crepúsculo e celebram de tardinha com a família na hora do jantar. Alguns anos atrás, durante a época do ramadã, eu guiei um grupo de alunos do Centro da BYU de Jerusalém numa excursão para a Margem Ocidental (conhecida hoje como os Territórios da Palestina, ou simplesmente a Palestina). Nablo, a antiga Siquém, estava recém esquentando e se tornando um dos pontos de detonação no conflito entre os israelenses e os palestinos, por isso um guarda de segurança palestino, empregado do Centro da BYU e muito querido pelos estudantes, nos acompanhou como precaução adicional no nosso passeio pela Palestina. Ao voltarmos a Jerusalém, os estudantes se surpreenderam quando o guarda tirou um lanche da mochila e começou a comê-lo. Ao passo que ele olhava os estudantes surpresos de sanduiche na mão, ele lhes disse: “Ora, sou cristão!” Não imaginavam que um dos guardas pudesse ser cristão, simplesmente achavam que todos os palestinos eram muçulmanos.

Na minha experiência de diretor de excursões na Terra Santa, a maioria dos turistas norte-americanos acham que todos os palestinos e todos os árabes que moram em Israel são muçulmanos. Na verdades os árabes cristãos são “os fieis esquecidos” (vide “The Forgotten Faithful: Arab Christians ["Os fieis esquecidos: Os árabes cristãos],” National Geographic, junho de 2009, 78–97). É surpreendente que em 1914 mais de 26 por cento da população da região hoje conhecida como Israel, a Jordânia, o Líbano, a Palestina e a Síria eram cristãos (87). Há pouco tempo, os cristãos palestinos que moravam em Belém representavam cerca de 80 por cento da população. Representavam a maioria naquela época. Hoje em dia, esta porcentagem baixou para 10 por cento no que agora é certamente uma cidade dominada pelos muçulmanos. O declínio dos cristãos em Belém, bem como em Nazaré, simboliza o que está passando em toda a região, onde os cristãos fazem parte de menos de 9 por cento da população total. Ironicamente, hoje muitas pessoas do Ocidente encaram estes cristãos com desconfiança, ao passo que estão sendo cada vez mais marginalizados e até forçados por seus vizinhos muçulmanos a ou converter-se ao islã ou fugir de lá.

Encontram-se numa situação dificílima. É interessante observar que tem havido muitos cristãos de renome do Oriente Médio, tais como, por exemplo, Abdalá Jaime Bucaram Ortiz, católico libanês e presidente do Ecuador (1996–97); John Sununu, cristão palestino-libanês da Igreja Ortodoxa Grega e líder político dos Estados Unidos; Carlos Ghosn, cristão maronita libanês e CEO da Nissan e Renault; Hanan Ashrawi, ativista palestino anglicano e porta-voz da Autoridade Palestina; Paul Anka, cristão sírio e cantor popular do Canadá e Estados Unidos; Salma Hayek, atriz católica romana de raizes libanesas e mexicanas; Azmi Bishara, cristão grego-ortodoxa e deputado do congresso israelense [Knesset] e Tony Shalhoub, cristão maronita libanês e recebedor de Emmy por sua atuação no seriado Monk de televisão.

Mais algumas experiências no Oriente Médio revelam a situação única em que os cristãos da região se encontraam hoje em dia.

Numa conversa particular com um amigo palestino cristão, há muitos anos, ele me disse que não gostava de viver sob a ocupação israelense, mas ele temia ainda mais o estabelecimento de uma nação palestina porque se tornaria uma nação islâmica. No que eu só posso descrever como sendo um estado de desespero completo, porém controlado, ele acresentou: “Pode ser que não haja nenhum futuro para mim e minha família nesta terra,” uma terra em que o cristianismo nasceu e onde sua família havia morado como cristãos por mais de quinhentos anos.

Durante uma excursão na Terra Santa, há cinco ou seis anos, alguns participantes conversaram com um palestino durante uma das etapas da viagem. Pelo jeito esta ligeira discussão começou com algumas perguntas inocentes sobre a opinião dele do conflito entre Israel e a Palestina. Porém, ao conversarem com ele, se tornou claro que eles apoiavam as políticas em vigor do Estado de Israel, inclusive a expansão de colônias judaicas pelas terras palestinas da margem ocidental. Ao aproximar-me deles, perguntaram-lhe: “Por que os palestinos não se mudam à Jordânia e permitem que os israelenses tenham seu próprio país?” Eles aparentemente supunham que os palestinos não tinham nem um vínculo histórico nem direitos legais àquela terra como os judeus tinham, ou seja, que os palestinos, como os muçulmanos, eram estrangeiros na Terra Santa.

Esses turistas se surpreenderam quando ele respondeu: “Por que vocês não se importam conosco, seus irmãos cristãos? Não somos nós também discípulos de Jesus, como vocês? Será que Belém, Nazaré, Cafarnaum e Jerusalém não são lugares santos para nós também?” Aí ele se revelou como palestino crisão, e não palestino muçulmano. Eles [os turistas] supunham, exatamente como meus estudantes da BYU, que todos os árabes e palestinos são muçulmanos. Descobriram nesta conversa que a família dele havia vivido naquela terra por muitos séculos e haviam sido cristãos por muito mais tempo de que os ancestrais dos turistas os quais provavelmente eram pagãos ainda no interior da Europa quando os antepassados dele aceitaram o cristianismo na Terra Santa há mais ou menos dois mil anos. Logo entenderam que não era justo que um cristão crente que havia vivido por tanto tempo naquela terra fosse perseguido, impelido e marginalizado pelas ideologias políticas e religiosas que estavam em choque naquela região.

Na revista National Geographic deste mês o artigo sobre os cristãos do Oriente Médio serve de grande introdução à história deles, destacando um aspecto importante mas pouco conhecido, sim, menos conhecido que devia ser, dos conflitos daquela terra. Podemos concluir que o assunto é bem mais complexo do que geralmente se imagina.


Paz e Sossego

POSTED BY: holzapfel

05/28/09


Recém visitei Powell’s City of Books [livraria] no centro de Portland, Estado de Oregon. Powell’s é uma das livrarias independentes [que não faça parte de uma cadeia nacional] notáveis dos Estados Unidosis e pelo que saibamos é a que mais vende livros usados em todo o mundo. A loja ocupa um quarteirão inteiro e mantém em destaque mais de um milhão de títulos.

Ao vagar por este local famoso, observei, na seção de autores e autógrafos, o livro de Gordon Hempton One Square Inch of Silence: One Man’s Search for Natural Silence in a Noisy World [Uma polegada quadrada de silêncio: Um homem à busca de silêncio natural num mundo barulhento] (New York: Free Press, 2009). O título me captou por causa de meu interesse no assunto (vide meu blog de 3 de novembro de 2008, “Solidão, Silêncio e Escuridão”) e logo coloquei-o na braçada de livros que eu já levava. Hempton é um técnico premiado de gravação de som que mora em Port Angeles, Estado de Washington, próximo ao Parque Olímpico Nacional—o local de “uma polegada quadrada” cujos ruídos e silêncio ele gravou.

Este livro conta a história de uma viagem épica de carro atravessando os Estados Unidos a fim de gravar os ruídos da paisagem natural da América. Ele encheu sua Kombi Volkswagen ‘64 de equipamentos de gravação e de medição de decibel antes de partir da costa oeste rumo à costa leste do país. É difícil escapar do barulho do mundo moderno, como Hempton mostra. Até em alguns dos lugares mais silenciosos da América do Norte—nossos parques nacionais—aviões quebram o silêncio e maquinaria moderna usada pelos próprios funcionários do parque às vezes molesta tanto os humanso como os animais presentes.

Por final, ao chegar a Washington DC, onde ele se reuniu com oficiais do governo federal para dar apoio à legislação que conservaria o silêncio natural nos parques nacionais, ele havia gravado os sons, imagens e retratos de uns lugares maravilhosos, inclusive parte do interior do Estado de Utah (121–56). O livro é acompanhado de um CD que preserva os sons gravados.

Nós, com certeza, enfrentamos hoje a poluição sonora. Para ter uns momentos de paz e sossego temos que desligar a televisão, rádio ou iPod. Como observa Hempton: “As palavras paz e sossego são quase sinônimas e muitas vezes se pronunciam na mesma frase” (12).

Hempton relata os benefícios de estar num lugar natural e de sossego. Ele nota que “coisas boas vêm de lugar sossegado: estudo, oração, música, transformação, adoração e comunhão” (12). Ele argumenta que “se não dermos ouvidos ao problema do sumiço do sossego natural, perderemos algo precioso, algo insubstiuível (3). Ele observa: “É nosso direito de herança poder escutar, calmos e sem inquietação, o som do ambiente natural” (2).

É interessante notar, como observa Hempton, que “a fauna depende do senso de audição para detectar os predadores que se aproximam e certamente os animais não ficarão por muito tempo em lugares onde é difícil ouvir” (20). Ele também opina: “Só a audição pode monitorar em todas as direções ao mesmo tempo e até predizer o que se poderá encontrar ao dobrar a esquina” (56).

Eu, às vezes, fico pensando se os humanos também lutam para ouvir, ouvir a voz do Espírito, que pode preveni-los de perigos que não se enxergam, ou daquilo que se dará conosco ao dobrar a esquina. Os ruídos, em nível cada mais crescente, podem nos distrair e desviar-nos de pensamentos e ações mais elevados e nobres. Talvez não nos desfrutemos de tais experiências espirituais o quanto que devíamos por falta de silêncio natural que pode permitir-nos sintonizar nossos ouvidos à voz celestial. Cada vez mais, as vozes e ruídos conflitantes nos enchem os ouvidos de conselhos contraditórios e barulhos que nos afastam das coisas do Espírito. Tais vozes e sons não só procuram captar nossa atenção como também querem cativar nosso coração.

O salmista disse: “Aquietai-vos, e sabei que eu sou Deus” (Salmos 46:10). Eis uma verdade eterna do passado—verdade esta que se tratava de um bom conselho naquela época bem como na atual.


Deus está de volta

POSTED BY: holzapfel

05/27/09


Durante duzentos anos, filósofos europeus, tais como Karl Marx, Emile Durkheim e Max Weber acreditavam que a religião era destinada à ruína e que Deus estava morto. Porém, a história sempre nos surpreende. Poucos líderes políticos e adacêmicos do passado teriam imaginado que as pessoas religiosas e suas instituições fariam um papel tão importante no mundo de hoje. Até os acontecimentos de 11 de setembro de 2001, mostram que o que se ensina numa escola religiosa na Arábia Saudita tem importância para todos, onde quer que estejam. Além disso, a eleição presidencial norte-americana de 2008 revelou que a crença religiosa ainda é muito importante, embora a constituição dos Estados Unidos não exija nenhum teste de religiosidade por parte dos candidatos (Artigo VI, seção 3 declara: “Nenhum teste religioso será exigido como precondição para qualquer cargo público, inclusive cargo de confiança, nos Estados Unidos”).

Um dos esforços mais recentes de compreender por que a fé está crescendo frente ao profundo secularismo de hoje se encontra no livro God is Back: How the Global Revival of Faith is Changing the World [Deus está de volta: Como a renovação global da fé religiosa está transformando o mundo] de John Micklethwait e Adrian Wooldridge (New York: Penguin, 2009). O que é de interesse para nós é que os Santos dos Últimos Dias são mencionados várias vezes (vide pp. 18, 19, 65, 115, 124, 229, 233, 350, 357, 371).

Os autores descrevem seu projeto como “uma jornada longa” e acrescentam: “Sem dúvida a mensagem global [deste livro] deprimirá muitos seculares porque às vezes também nos deprime. Algumas coisas horríveis já aconteceram neste século em nome de Deus e mais, sem dúvida, estão para acontecer.” Concluem: “Desigual e gradativamente, a religião está se tornando uma questão de escolha—algo que o indivíduo decide (se vai crer ou não e em que) por si mesmo” (372). Este modelo em que a escolha individual faz um papel central na decisão de crer ou não crer é uma atitude do novo mundo. Assim o modelo do futuro é o americano, em que não há uma igreja estabelecida pelo estado e as pessoas decidem no que crerão. O livro oferece umas ideias surpreendentes, tais como:

  • “Até 2050, a China possivelmente poderá ser a maior nação muçulmana, bem como a maior nação cristã, do mundo” (5).
  • “Muitos confitos antigos hoje têm adquirido uma dimensão religiosa. A venenosa guerra de seissenta anos na Palestina no começo era um conflito principalmente secular, . . . hoje em dia, na época do Hamás, côlonos judaicos e o sionismo cristão, a contenda entre Israel e a Palestina ficou mais polarizada, uma luta sectária com cada vez mais pessoas declarando que Deus está de seu lado” (13).
  • “Uma pesquisa de 2006—quinze anos depois da queda do regime soviético—descobriu-se que 84 por cento da população russa acreditava em Deus, ao passo que somente 16 por cento se considerava ateu” (13).
  • “As estatísticas tendem a indicar que o movimento global em direção ao mundano já parou e muitos estudos mostram que a religião está em plena ascendência. Uma estimativa sugere que a proporção de pessoas filiadas a uma das quatro maiores religiões do mundo—o cristianismo, o islã, o budismo e o hinduismo—cresceu de 67 por cento em 1900 a 73 por cento em 2005 e pode alcançar 80 por cento até 2050? (16). Não importa como se encare o assunto, é bem mais possível que a religião afete as pessoas da atualidade do que as de outrora, ou por ser parte de sua vida ou por fazer parte da vida dos que as rodeiam, sejam vizinhos, colegas de trabalho, ou até governantes ou aqueles que procuram derrubá-los” (24).
  • “O estudo mais apurado da crença religiosa da América . . . revela que o país mais poderoso do mundo também é um dos mais religiosos. Mais de nove americanos em dez (92 por cento) acreditam na existência ou de Deus ou de um espírito universal” (131).
  • “Os cientistas sociais já produziram um monte de evidências que a religião faz bem. . . . Daniel Hall, um médico do Centro Médico da Universidade de Pittsburgh, descobriu que frequentar uma igreja semanalmente pode acrescentar de dois a três anos à vida, . . . [proporcionando-lhes] ‘uma espectativa expressiva de vida mais prolongada’” (146). “A religião também parece ter uma correlação com a felicidade. Uma das conclusões mais impressionantes da pesquisa de Pew é que os americanos que assistem ao culto religioso uma ou mais vezes por semana são mais felizes (43 por cento muito felizes) do que os que assistem mensalmente ou menos (31 por cento) e dos que assitem raramente ou nunca, somente 26 por cento são felizes” (147).
  • “A religião pode combater o mau comporatmento e promover o bem-estar” (147).
  • “A religião providencia laços sociais. . . . as igrejas oferecem um lugar seguro onde as pessoas podem se conhecer e compartilhar informações e conhecimentos. Elas [as igrejas] põem as pessoas com problemas em contato com as que têm soluções” (148–49).

Por fim, os autores nos lembram de como os peritos do passado estavam errados quanto à religião e a Deus, inclusive Peter Berger, que assegurou numa entrevista do jornal New York Times em 1968 que “até o século vinte e um, os que creem na religião só se encontrarão em seitas pequenas, reunidos de forma precária para resistir à cultura secular mundial” (52).


“Até as Pedras Clamarão”

POSTED BY: holzapfel

05/07/09


Quando Jesus chegou a Jerusalém pela última vez, ele caminhou do Monte das Oliveiras à Cidade Santa. Ao fazer a cominhada, “toda a multidão de discípulos começou a regozijar-se e dar louvores em alta voz a Deus pelas obras poderosas que haviam visto” (Lucas 19:37). Lucas ascresenta: “E disseram-lhe de entre a multidaõ alguns dos fariseus: Mestre, repreeende os teus discípulos. E, respondendo ele [Jesus], disse-lhes: Digo-vos que, se estes se calarem, as próprias pedras clamarão” (Lucas 19:39–40).

Há pedras em todo lugar naquela terra áspera que se chama Terra Santa. As pessoas não só as veem em todo lugar como também as pisam e visitam lugares onde se encontram estruturas feitas de pedra como o Túmulo do Jardim ou o túmulo cortado em pedra próximo à Igreja do Santo Sepulcro, também há a laje onde Abraão iria oferecer Isaque, que atualmente se encontra dentro da mesquita A Cúpula da Pedra, a pedra onde Jesus orou em Getsêmani (atualmente parte do altar da Igreja de Todas as Nações) e o enorme muro de pedra construída pela ordem de Herodes do Monte do Templo. Acabo de voltar na semana passada de Jerusalém onde às vezes os sinos das igrejas, o clamor dos almuadens e o sirene do sábado nos captam a atenção—sons que ecoam pelo ar. Mas a verdadeira história está nas pedras.

No voo a Jerusalém, eu li o último livro de Simon Goldhill: Jerusalem: City of Longing [Jerusalém: Cidade de Nostalgia] (Cambridge: The Belknap Press of Harvard University Press, 2008). Esta obra me ajudou na minha visita, proporcionando-me esclarecimentos que me possibilitaram a integração de um monte de informações e muitos anos de experiência própria em Jerusalém. Ao pensar nas pessoas que conheci (guias, turistas, motoristas de táxi e muitas outras pessoas), reconheci que a maioria de nós quer interpretar em “branco e preto” as histórias sobre Jerusalém. Porém, como Goldhill prova nesta narrativa tão bem-escrita: “a cidade tem que ser vista de perspectivas múltiplas para poder apreciá-la” (viii), e as histórias são “bem mais complicadas e muito mais interessantes do que os estereótipos” (ix).
Em vez de produzir uma apresentação cronológica, o autor nos dá uma visão de vários lugares (a maioria relacionada a pedras e lápides) vinculados aos pontos principais da história de Jerusalém. Ao contar sua história, Golddhill apresenta algumas das “narrativas concorrentes” (judaicas, muçulmanas e cristãs [ortodoxas, católicas e protestantes]) que nos relatam suas próprias versões, em preto e branco, dos eventos históricos(282). Ele conclui habilmente: “As tensões entre as três religiões abraâmicas [judaismo, cristianismo e islã] se focalizam nos lugares santos, no posse deles, na sua proteção e no seu valor simbólico” (47). Na verdade, a curadoria de cada local permite a todos os grupos compartilharem sua própria narrativa validadora.

Goldhill conclui: “Jerusalém tem uma relação estranha à pedra” (224). Ele observa que até “os arqueólogos procuram fazê-las falar” (225). Não obstante, ele reconhece que “ao depender da arqueologia, é inevitável que se frustre com o passado perdido, fragmentado e desconhecidot” (225).

Nem todos concordarão com os locais e histórias que Goldhill decidiu incluir, mas o leitor descobrirá que ele “procurou relatar esta história da forma mais simples e neutra possível” (281). Se você já visitou Jerusalém, prentende visitá-la no futuro ou simplesmente se interessa pelo assunto, vale a pena ler este livro que proporciona uma abordagem com muitas nuanças a respeito desta cidade tão complexa. Ele conclui: “Estar em Jerusalém é passear numa cidade nostálgica ao procuar achar seu lugar nas muitas camadas de história, na imaginação, na crença, nos desejos e nos conflitos que fazem Jerusalém o que realmente é” (332).