Blog de Robert L. Millet


Diretor de Publicações do Centro de Estudos Religiosos da BYU





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“E depois nos dirigimos a Roma”

POSTED BY: holzapfel

07/07/09


Há quase dois mil anos Lucas preparou uma obra em duas partes, ou seja, o Evangelho de São Lucas e o livro dos Atos dos Apóstolos, mas o que se conta nelas é tão reanimador e emociante como uma história moderna. Ele estva em muito boa forma ao escrever os últimos dois capítulos de Atos, os quais contêm uma das maiores narrativas do passado sobre viagens ao alto-mar (vide Atos 27–28). Paulo já havia languescido por dois anos na prisão da capital provinciana romana da Judeia quando Lucas iniciou esta parte muito conhecida do relato: “E, como se determinou que havíamos de navegar para a Itália, entregaram Paulo, e alguns outros presos, a um centurião por nome de Júlio, da coorte augusta” (Atos 27:1).

Lucas nos deu um relato dramático da tempestade, da advertência e do naufrágio. Paulo, que era conhecido como missionário incansável que procura salvar o mundo, de fato salvou a tripulação, os soldados e os prisioneiros. Acharam refúgio numa ilha, provavelmente a de Malta, e depois de três meses, embarcaram num navio graneleiro provindo de Alexandria, Egito, rumo a Roma.

Lucas continuou, “E, chegando a Siracusa [na Sicília], ficamos ali três dias. De onde, indo costeando, viemos a Régio; e soprando, um dia depois, um vento do sul, chegamos no segundo dia a Potéoli [a atual Pozzuoli, logo ao norte de Nápoles]” (Atos 28:12–13).

Durante os últimos quinze anos tenho retraçado as viagens de Paulo. Trata-se não somente de um projeto profissional (leciono o Novo Testamento) mas também uma busca pessoal—Paulo me interessa muito há um tempão. No domingo passado, por fim visitei um local que está há muito tempo na minha lista de lugares que eu gostaria de conhecer—Pozzuoli. Com um ex-companheiro de missão, Steve Smoot, na direção, chegamos a esta cidadezinha calma na costa italiana.

Pozzuoli recém apareceu no noticiário. Só na semana passada, arqueólogos desenterraram um busto em mármore do imperador romano Tito, o qual havia destruído Jerusalém e o templo em 70 AD.

Voltando ao livro de Atos, o relato de Lucas agora passa de narrativa marítima à viagem por terra com seis palavras cheias de emoçaõ: “E depois nos dirigimos a Roma” (Atos 28:14). Naturalmente, Roma foi a destinação final da jornada, mas, o que é de mais importante, a chegada a Roma representou o ponto culminante do relato do livro de Atos—Paulo agora proclamaria “as boas novas” em Roma, o centro do próprio império.

Para mim, a melhor parte da visita aos locais históricos é que daquele dia em diante sinto algo diferente ao ensinar a história sobre ao local. Como Lucas, vou poder proporcionar um retrato em palavras a meus estudantes. Neste caso, descreverei o Mar Mediterrâneo tão azul, a praia apinhada de barcos, redes e pássaros e cercado de morros no horizonte em Pozzuoli. Na minha lembrança levarei um retrato de Paulo, subindo os barrancos que separam a aldeia da planície lá em cima, dando início a sua caminhada a Roma. Lembrar-me-ei do calor, da humidade e do cheiro da água do mar e dos peixes. Meus alunos viajarão comigo ao viajarmos com Lucas e Paulo por Pozzuoli a caminho de Roma ao estudarmos o relato desta viagem do Apóstolo Paulo.


Cristãos na Terra Santa

POSTED BY: holzapfel

06/01/09


Durante o mês de ramadã, os muçulmanos jejuam todos os dias da alvorada até o crepúsculo e celebram de tardinha com a família na hora do jantar. Alguns anos atrás, durante a época do ramadã, eu guiei um grupo de alunos do Centro da BYU de Jerusalém numa excursão para a Margem Ocidental (conhecida hoje como os Territórios da Palestina, ou simplesmente a Palestina). Nablo, a antiga Siquém, estava recém esquentando e se tornando um dos pontos de detonação no conflito entre os israelenses e os palestinos, por isso um guarda de segurança palestino, empregado do Centro da BYU e muito querido pelos estudantes, nos acompanhou como precaução adicional no nosso passeio pela Palestina. Ao voltarmos a Jerusalém, os estudantes se surpreenderam quando o guarda tirou um lanche da mochila e começou a comê-lo. Ao passo que ele olhava os estudantes surpresos de sanduiche na mão, ele lhes disse: “Ora, sou cristão!” Não imaginavam que um dos guardas pudesse ser cristão, simplesmente achavam que todos os palestinos eram muçulmanos.

Na minha experiência de diretor de excursões na Terra Santa, a maioria dos turistas norte-americanos acham que todos os palestinos e todos os árabes que moram em Israel são muçulmanos. Na verdades os árabes cristãos são “os fieis esquecidos” (vide “The Forgotten Faithful: Arab Christians ["Os fieis esquecidos: Os árabes cristãos],” National Geographic, junho de 2009, 78–97). É surpreendente que em 1914 mais de 26 por cento da população da região hoje conhecida como Israel, a Jordânia, o Líbano, a Palestina e a Síria eram cristãos (87). Há pouco tempo, os cristãos palestinos que moravam em Belém representavam cerca de 80 por cento da população. Representavam a maioria naquela época. Hoje em dia, esta porcentagem baixou para 10 por cento no que agora é certamente uma cidade dominada pelos muçulmanos. O declínio dos cristãos em Belém, bem como em Nazaré, simboliza o que está passando em toda a região, onde os cristãos fazem parte de menos de 9 por cento da população total. Ironicamente, hoje muitas pessoas do Ocidente encaram estes cristãos com desconfiança, ao passo que estão sendo cada vez mais marginalizados e até forçados por seus vizinhos muçulmanos a ou converter-se ao islã ou fugir de lá.

Encontram-se numa situação dificílima. É interessante observar que tem havido muitos cristãos de renome do Oriente Médio, tais como, por exemplo, Abdalá Jaime Bucaram Ortiz, católico libanês e presidente do Ecuador (1996–97); John Sununu, cristão palestino-libanês da Igreja Ortodoxa Grega e líder político dos Estados Unidos; Carlos Ghosn, cristão maronita libanês e CEO da Nissan e Renault; Hanan Ashrawi, ativista palestino anglicano e porta-voz da Autoridade Palestina; Paul Anka, cristão sírio e cantor popular do Canadá e Estados Unidos; Salma Hayek, atriz católica romana de raizes libanesas e mexicanas; Azmi Bishara, cristão grego-ortodoxa e deputado do congresso israelense [Knesset] e Tony Shalhoub, cristão maronita libanês e recebedor de Emmy por sua atuação no seriado Monk de televisão.

Mais algumas experiências no Oriente Médio revelam a situação única em que os cristãos da região se encontraam hoje em dia.

Numa conversa particular com um amigo palestino cristão, há muitos anos, ele me disse que não gostava de viver sob a ocupação israelense, mas ele temia ainda mais o estabelecimento de uma nação palestina porque se tornaria uma nação islâmica. No que eu só posso descrever como sendo um estado de desespero completo, porém controlado, ele acresentou: “Pode ser que não haja nenhum futuro para mim e minha família nesta terra,” uma terra em que o cristianismo nasceu e onde sua família havia morado como cristãos por mais de quinhentos anos.

Durante uma excursão na Terra Santa, há cinco ou seis anos, alguns participantes conversaram com um palestino durante uma das etapas da viagem. Pelo jeito esta ligeira discussão começou com algumas perguntas inocentes sobre a opinião dele do conflito entre Israel e a Palestina. Porém, ao conversarem com ele, se tornou claro que eles apoiavam as políticas em vigor do Estado de Israel, inclusive a expansão de colônias judaicas pelas terras palestinas da margem ocidental. Ao aproximar-me deles, perguntaram-lhe: “Por que os palestinos não se mudam à Jordânia e permitem que os israelenses tenham seu próprio país?” Eles aparentemente supunham que os palestinos não tinham nem um vínculo histórico nem direitos legais àquela terra como os judeus tinham, ou seja, que os palestinos, como os muçulmanos, eram estrangeiros na Terra Santa.

Esses turistas se surpreenderam quando ele respondeu: “Por que vocês não se importam conosco, seus irmãos cristãos? Não somos nós também discípulos de Jesus, como vocês? Será que Belém, Nazaré, Cafarnaum e Jerusalém não são lugares santos para nós também?” Aí ele se revelou como palestino crisão, e não palestino muçulmano. Eles [os turistas] supunham, exatamente como meus estudantes da BYU, que todos os árabes e palestinos são muçulmanos. Descobriram nesta conversa que a família dele havia vivido naquela terra por muitos séculos e haviam sido cristãos por muito mais tempo de que os ancestrais dos turistas os quais provavelmente eram pagãos ainda no interior da Europa quando os antepassados dele aceitaram o cristianismo na Terra Santa há mais ou menos dois mil anos. Logo entenderam que não era justo que um cristão crente que havia vivido por tanto tempo naquela terra fosse perseguido, impelido e marginalizado pelas ideologias políticas e religiosas que estavam em choque naquela região.

Na revista National Geographic deste mês o artigo sobre os cristãos do Oriente Médio serve de grande introdução à história deles, destacando um aspecto importante mas pouco conhecido, sim, menos conhecido que devia ser, dos conflitos daquela terra. Podemos concluir que o assunto é bem mais complexo do que geralmente se imagina.


“Até as Pedras Clamarão”

POSTED BY: holzapfel

05/07/09


Quando Jesus chegou a Jerusalém pela última vez, ele caminhou do Monte das Oliveiras à Cidade Santa. Ao fazer a cominhada, “toda a multidão de discípulos começou a regozijar-se e dar louvores em alta voz a Deus pelas obras poderosas que haviam visto” (Lucas 19:37). Lucas ascresenta: “E disseram-lhe de entre a multidaõ alguns dos fariseus: Mestre, repreeende os teus discípulos. E, respondendo ele [Jesus], disse-lhes: Digo-vos que, se estes se calarem, as próprias pedras clamarão” (Lucas 19:39–40).

Há pedras em todo lugar naquela terra áspera que se chama Terra Santa. As pessoas não só as veem em todo lugar como também as pisam e visitam lugares onde se encontram estruturas feitas de pedra como o Túmulo do Jardim ou o túmulo cortado em pedra próximo à Igreja do Santo Sepulcro, também há a laje onde Abraão iria oferecer Isaque, que atualmente se encontra dentro da mesquita A Cúpula da Pedra, a pedra onde Jesus orou em Getsêmani (atualmente parte do altar da Igreja de Todas as Nações) e o enorme muro de pedra construída pela ordem de Herodes do Monte do Templo. Acabo de voltar na semana passada de Jerusalém onde às vezes os sinos das igrejas, o clamor dos almuadens e o sirene do sábado nos captam a atenção—sons que ecoam pelo ar. Mas a verdadeira história está nas pedras.

No voo a Jerusalém, eu li o último livro de Simon Goldhill: Jerusalem: City of Longing [Jerusalém: Cidade de Nostalgia] (Cambridge: The Belknap Press of Harvard University Press, 2008). Esta obra me ajudou na minha visita, proporcionando-me esclarecimentos que me possibilitaram a integração de um monte de informações e muitos anos de experiência própria em Jerusalém. Ao pensar nas pessoas que conheci (guias, turistas, motoristas de táxi e muitas outras pessoas), reconheci que a maioria de nós quer interpretar em “branco e preto” as histórias sobre Jerusalém. Porém, como Goldhill prova nesta narrativa tão bem-escrita: “a cidade tem que ser vista de perspectivas múltiplas para poder apreciá-la” (viii), e as histórias são “bem mais complicadas e muito mais interessantes do que os estereótipos” (ix).
Em vez de produzir uma apresentação cronológica, o autor nos dá uma visão de vários lugares (a maioria relacionada a pedras e lápides) vinculados aos pontos principais da história de Jerusalém. Ao contar sua história, Golddhill apresenta algumas das “narrativas concorrentes” (judaicas, muçulmanas e cristãs [ortodoxas, católicas e protestantes]) que nos relatam suas próprias versões, em preto e branco, dos eventos históricos(282). Ele conclui habilmente: “As tensões entre as três religiões abraâmicas [judaismo, cristianismo e islã] se focalizam nos lugares santos, no posse deles, na sua proteção e no seu valor simbólico” (47). Na verdade, a curadoria de cada local permite a todos os grupos compartilharem sua própria narrativa validadora.

Goldhill conclui: “Jerusalém tem uma relação estranha à pedra” (224). Ele observa que até “os arqueólogos procuram fazê-las falar” (225). Não obstante, ele reconhece que “ao depender da arqueologia, é inevitável que se frustre com o passado perdido, fragmentado e desconhecidot” (225).

Nem todos concordarão com os locais e histórias que Goldhill decidiu incluir, mas o leitor descobrirá que ele “procurou relatar esta história da forma mais simples e neutra possível” (281). Se você já visitou Jerusalém, prentende visitá-la no futuro ou simplesmente se interessa pelo assunto, vale a pena ler este livro que proporciona uma abordagem com muitas nuanças a respeito desta cidade tão complexa. Ele conclui: “Estar em Jerusalém é passear numa cidade nostálgica ao procuar achar seu lugar nas muitas camadas de história, na imaginação, na crença, nos desejos e nos conflitos que fazem Jerusalém o que realmente é” (332).