Blog de Robert L. Millet


Diretor de Publicações do Centro de Estudos Religiosos da BYU





Páginas

Categorias

Arquivos


Cristãos na Terra Santa

POSTED BY: holzapfel

06/01/09


Durante o mês de ramadã, os muçulmanos jejuam todos os dias da alvorada até o crepúsculo e celebram de tardinha com a família na hora do jantar. Alguns anos atrás, durante a época do ramadã, eu guiei um grupo de alunos do Centro da BYU de Jerusalém numa excursão para a Margem Ocidental (conhecida hoje como os Territórios da Palestina, ou simplesmente a Palestina). Nablo, a antiga Siquém, estava recém esquentando e se tornando um dos pontos de detonação no conflito entre os israelenses e os palestinos, por isso um guarda de segurança palestino, empregado do Centro da BYU e muito querido pelos estudantes, nos acompanhou como precaução adicional no nosso passeio pela Palestina. Ao voltarmos a Jerusalém, os estudantes se surpreenderam quando o guarda tirou um lanche da mochila e começou a comê-lo. Ao passo que ele olhava os estudantes surpresos de sanduiche na mão, ele lhes disse: “Ora, sou cristão!” Não imaginavam que um dos guardas pudesse ser cristão, simplesmente achavam que todos os palestinos eram muçulmanos.

Na minha experiência de diretor de excursões na Terra Santa, a maioria dos turistas norte-americanos acham que todos os palestinos e todos os árabes que moram em Israel são muçulmanos. Na verdades os árabes cristãos são “os fieis esquecidos” (vide “The Forgotten Faithful: Arab Christians ["Os fieis esquecidos: Os árabes cristãos],” National Geographic, junho de 2009, 78–97). É surpreendente que em 1914 mais de 26 por cento da população da região hoje conhecida como Israel, a Jordânia, o Líbano, a Palestina e a Síria eram cristãos (87). Há pouco tempo, os cristãos palestinos que moravam em Belém representavam cerca de 80 por cento da população. Representavam a maioria naquela época. Hoje em dia, esta porcentagem baixou para 10 por cento no que agora é certamente uma cidade dominada pelos muçulmanos. O declínio dos cristãos em Belém, bem como em Nazaré, simboliza o que está passando em toda a região, onde os cristãos fazem parte de menos de 9 por cento da população total. Ironicamente, hoje muitas pessoas do Ocidente encaram estes cristãos com desconfiança, ao passo que estão sendo cada vez mais marginalizados e até forçados por seus vizinhos muçulmanos a ou converter-se ao islã ou fugir de lá.

Encontram-se numa situação dificílima. É interessante observar que tem havido muitos cristãos de renome do Oriente Médio, tais como, por exemplo, Abdalá Jaime Bucaram Ortiz, católico libanês e presidente do Ecuador (1996–97); John Sununu, cristão palestino-libanês da Igreja Ortodoxa Grega e líder político dos Estados Unidos; Carlos Ghosn, cristão maronita libanês e CEO da Nissan e Renault; Hanan Ashrawi, ativista palestino anglicano e porta-voz da Autoridade Palestina; Paul Anka, cristão sírio e cantor popular do Canadá e Estados Unidos; Salma Hayek, atriz católica romana de raizes libanesas e mexicanas; Azmi Bishara, cristão grego-ortodoxa e deputado do congresso israelense [Knesset] e Tony Shalhoub, cristão maronita libanês e recebedor de Emmy por sua atuação no seriado Monk de televisão.

Mais algumas experiências no Oriente Médio revelam a situação única em que os cristãos da região se encontraam hoje em dia.

Numa conversa particular com um amigo palestino cristão, há muitos anos, ele me disse que não gostava de viver sob a ocupação israelense, mas ele temia ainda mais o estabelecimento de uma nação palestina porque se tornaria uma nação islâmica. No que eu só posso descrever como sendo um estado de desespero completo, porém controlado, ele acresentou: “Pode ser que não haja nenhum futuro para mim e minha família nesta terra,” uma terra em que o cristianismo nasceu e onde sua família havia morado como cristãos por mais de quinhentos anos.

Durante uma excursão na Terra Santa, há cinco ou seis anos, alguns participantes conversaram com um palestino durante uma das etapas da viagem. Pelo jeito esta ligeira discussão começou com algumas perguntas inocentes sobre a opinião dele do conflito entre Israel e a Palestina. Porém, ao conversarem com ele, se tornou claro que eles apoiavam as políticas em vigor do Estado de Israel, inclusive a expansão de colônias judaicas pelas terras palestinas da margem ocidental. Ao aproximar-me deles, perguntaram-lhe: “Por que os palestinos não se mudam à Jordânia e permitem que os israelenses tenham seu próprio país?” Eles aparentemente supunham que os palestinos não tinham nem um vínculo histórico nem direitos legais àquela terra como os judeus tinham, ou seja, que os palestinos, como os muçulmanos, eram estrangeiros na Terra Santa.

Esses turistas se surpreenderam quando ele respondeu: “Por que vocês não se importam conosco, seus irmãos cristãos? Não somos nós também discípulos de Jesus, como vocês? Será que Belém, Nazaré, Cafarnaum e Jerusalém não são lugares santos para nós também?” Aí ele se revelou como palestino crisão, e não palestino muçulmano. Eles [os turistas] supunham, exatamente como meus estudantes da BYU, que todos os árabes e palestinos são muçulmanos. Descobriram nesta conversa que a família dele havia vivido naquela terra por muitos séculos e haviam sido cristãos por muito mais tempo de que os ancestrais dos turistas os quais provavelmente eram pagãos ainda no interior da Europa quando os antepassados dele aceitaram o cristianismo na Terra Santa há mais ou menos dois mil anos. Logo entenderam que não era justo que um cristão crente que havia vivido por tanto tempo naquela terra fosse perseguido, impelido e marginalizado pelas ideologias políticas e religiosas que estavam em choque naquela região.

Na revista National Geographic deste mês o artigo sobre os cristãos do Oriente Médio serve de grande introdução à história deles, destacando um aspecto importante mas pouco conhecido, sim, menos conhecido que devia ser, dos conflitos daquela terra. Podemos concluir que o assunto é bem mais complexo do que geralmente se imagina.


Deus está de volta

POSTED BY: holzapfel

05/27/09


Durante duzentos anos, filósofos europeus, tais como Karl Marx, Emile Durkheim e Max Weber acreditavam que a religião era destinada à ruína e que Deus estava morto. Porém, a história sempre nos surpreende. Poucos líderes políticos e adacêmicos do passado teriam imaginado que as pessoas religiosas e suas instituições fariam um papel tão importante no mundo de hoje. Até os acontecimentos de 11 de setembro de 2001, mostram que o que se ensina numa escola religiosa na Arábia Saudita tem importância para todos, onde quer que estejam. Além disso, a eleição presidencial norte-americana de 2008 revelou que a crença religiosa ainda é muito importante, embora a constituição dos Estados Unidos não exija nenhum teste de religiosidade por parte dos candidatos (Artigo VI, seção 3 declara: “Nenhum teste religioso será exigido como precondição para qualquer cargo público, inclusive cargo de confiança, nos Estados Unidos”).

Um dos esforços mais recentes de compreender por que a fé está crescendo frente ao profundo secularismo de hoje se encontra no livro God is Back: How the Global Revival of Faith is Changing the World [Deus está de volta: Como a renovação global da fé religiosa está transformando o mundo] de John Micklethwait e Adrian Wooldridge (New York: Penguin, 2009). O que é de interesse para nós é que os Santos dos Últimos Dias são mencionados várias vezes (vide pp. 18, 19, 65, 115, 124, 229, 233, 350, 357, 371).

Os autores descrevem seu projeto como “uma jornada longa” e acrescentam: “Sem dúvida a mensagem global [deste livro] deprimirá muitos seculares porque às vezes também nos deprime. Algumas coisas horríveis já aconteceram neste século em nome de Deus e mais, sem dúvida, estão para acontecer.” Concluem: “Desigual e gradativamente, a religião está se tornando uma questão de escolha—algo que o indivíduo decide (se vai crer ou não e em que) por si mesmo” (372). Este modelo em que a escolha individual faz um papel central na decisão de crer ou não crer é uma atitude do novo mundo. Assim o modelo do futuro é o americano, em que não há uma igreja estabelecida pelo estado e as pessoas decidem no que crerão. O livro oferece umas ideias surpreendentes, tais como:

  • “Até 2050, a China possivelmente poderá ser a maior nação muçulmana, bem como a maior nação cristã, do mundo” (5).
  • “Muitos confitos antigos hoje têm adquirido uma dimensão religiosa. A venenosa guerra de seissenta anos na Palestina no começo era um conflito principalmente secular, . . . hoje em dia, na época do Hamás, côlonos judaicos e o sionismo cristão, a contenda entre Israel e a Palestina ficou mais polarizada, uma luta sectária com cada vez mais pessoas declarando que Deus está de seu lado” (13).
  • “Uma pesquisa de 2006—quinze anos depois da queda do regime soviético—descobriu-se que 84 por cento da população russa acreditava em Deus, ao passo que somente 16 por cento se considerava ateu” (13).
  • “As estatísticas tendem a indicar que o movimento global em direção ao mundano já parou e muitos estudos mostram que a religião está em plena ascendência. Uma estimativa sugere que a proporção de pessoas filiadas a uma das quatro maiores religiões do mundo—o cristianismo, o islã, o budismo e o hinduismo—cresceu de 67 por cento em 1900 a 73 por cento em 2005 e pode alcançar 80 por cento até 2050? (16). Não importa como se encare o assunto, é bem mais possível que a religião afete as pessoas da atualidade do que as de outrora, ou por ser parte de sua vida ou por fazer parte da vida dos que as rodeiam, sejam vizinhos, colegas de trabalho, ou até governantes ou aqueles que procuram derrubá-los” (24).
  • “O estudo mais apurado da crença religiosa da América . . . revela que o país mais poderoso do mundo também é um dos mais religiosos. Mais de nove americanos em dez (92 por cento) acreditam na existência ou de Deus ou de um espírito universal” (131).
  • “Os cientistas sociais já produziram um monte de evidências que a religião faz bem. . . . Daniel Hall, um médico do Centro Médico da Universidade de Pittsburgh, descobriu que frequentar uma igreja semanalmente pode acrescentar de dois a três anos à vida, . . . [proporcionando-lhes] ‘uma espectativa expressiva de vida mais prolongada’” (146). “A religião também parece ter uma correlação com a felicidade. Uma das conclusões mais impressionantes da pesquisa de Pew é que os americanos que assistem ao culto religioso uma ou mais vezes por semana são mais felizes (43 por cento muito felizes) do que os que assistem mensalmente ou menos (31 por cento) e dos que assitem raramente ou nunca, somente 26 por cento são felizes” (147).
  • “A religião pode combater o mau comporatmento e promover o bem-estar” (147).
  • “A religião providencia laços sociais. . . . as igrejas oferecem um lugar seguro onde as pessoas podem se conhecer e compartilhar informações e conhecimentos. Elas [as igrejas] põem as pessoas com problemas em contato com as que têm soluções” (148–49).

Por fim, os autores nos lembram de como os peritos do passado estavam errados quanto à religião e a Deus, inclusive Peter Berger, que assegurou numa entrevista do jornal New York Times em 1968 que “até o século vinte e um, os que creem na religião só se encontrarão em seitas pequenas, reunidos de forma precária para resistir à cultura secular mundial” (52).


“Até as Pedras Clamarão”

POSTED BY: holzapfel

05/07/09


Quando Jesus chegou a Jerusalém pela última vez, ele caminhou do Monte das Oliveiras à Cidade Santa. Ao fazer a cominhada, “toda a multidão de discípulos começou a regozijar-se e dar louvores em alta voz a Deus pelas obras poderosas que haviam visto” (Lucas 19:37). Lucas ascresenta: “E disseram-lhe de entre a multidaõ alguns dos fariseus: Mestre, repreeende os teus discípulos. E, respondendo ele [Jesus], disse-lhes: Digo-vos que, se estes se calarem, as próprias pedras clamarão” (Lucas 19:39–40).

Há pedras em todo lugar naquela terra áspera que se chama Terra Santa. As pessoas não só as veem em todo lugar como também as pisam e visitam lugares onde se encontram estruturas feitas de pedra como o Túmulo do Jardim ou o túmulo cortado em pedra próximo à Igreja do Santo Sepulcro, também há a laje onde Abraão iria oferecer Isaque, que atualmente se encontra dentro da mesquita A Cúpula da Pedra, a pedra onde Jesus orou em Getsêmani (atualmente parte do altar da Igreja de Todas as Nações) e o enorme muro de pedra construída pela ordem de Herodes do Monte do Templo. Acabo de voltar na semana passada de Jerusalém onde às vezes os sinos das igrejas, o clamor dos almuadens e o sirene do sábado nos captam a atenção—sons que ecoam pelo ar. Mas a verdadeira história está nas pedras.

No voo a Jerusalém, eu li o último livro de Simon Goldhill: Jerusalem: City of Longing [Jerusalém: Cidade de Nostalgia] (Cambridge: The Belknap Press of Harvard University Press, 2008). Esta obra me ajudou na minha visita, proporcionando-me esclarecimentos que me possibilitaram a integração de um monte de informações e muitos anos de experiência própria em Jerusalém. Ao pensar nas pessoas que conheci (guias, turistas, motoristas de táxi e muitas outras pessoas), reconheci que a maioria de nós quer interpretar em “branco e preto” as histórias sobre Jerusalém. Porém, como Goldhill prova nesta narrativa tão bem-escrita: “a cidade tem que ser vista de perspectivas múltiplas para poder apreciá-la” (viii), e as histórias são “bem mais complicadas e muito mais interessantes do que os estereótipos” (ix).
Em vez de produzir uma apresentação cronológica, o autor nos dá uma visão de vários lugares (a maioria relacionada a pedras e lápides) vinculados aos pontos principais da história de Jerusalém. Ao contar sua história, Golddhill apresenta algumas das “narrativas concorrentes” (judaicas, muçulmanas e cristãs [ortodoxas, católicas e protestantes]) que nos relatam suas próprias versões, em preto e branco, dos eventos históricos(282). Ele conclui habilmente: “As tensões entre as três religiões abraâmicas [judaismo, cristianismo e islã] se focalizam nos lugares santos, no posse deles, na sua proteção e no seu valor simbólico” (47). Na verdade, a curadoria de cada local permite a todos os grupos compartilharem sua própria narrativa validadora.

Goldhill conclui: “Jerusalém tem uma relação estranha à pedra” (224). Ele observa que até “os arqueólogos procuram fazê-las falar” (225). Não obstante, ele reconhece que “ao depender da arqueologia, é inevitável que se frustre com o passado perdido, fragmentado e desconhecidot” (225).

Nem todos concordarão com os locais e histórias que Goldhill decidiu incluir, mas o leitor descobrirá que ele “procurou relatar esta história da forma mais simples e neutra possível” (281). Se você já visitou Jerusalém, prentende visitá-la no futuro ou simplesmente se interessa pelo assunto, vale a pena ler este livro que proporciona uma abordagem com muitas nuanças a respeito desta cidade tão complexa. Ele conclui: “Estar em Jerusalém é passear numa cidade nostálgica ao procuar achar seu lugar nas muitas camadas de história, na imaginação, na crença, nos desejos e nos conflitos que fazem Jerusalém o que realmente é” (332).